Ortografias

9 06 2004

Quem não tem na cabeça uma palavra que, sempre que pronunciada, parece estar errada? Aquela impressão de que a maneira certa é Rúbrica, Substântivo, Célebro, Losângulo, adevogado. Algumas palavras simplesmente deveriam ser escritas de outra maneira. Não sei bem o motivo disso, mas todos temos um sentimento especial por algumas palavras, uma estranheza, como se alguém tivesse se enganado na hora de distribuir as letras e sílabas tônicas. Talvez resida aí a razão pela qual tanta gente escreve quizer ao invés de quiser. Antes do advento do corretor automático do Word, que também não é lá muito confiável, devia ser tortura chinesa para os professores ler trabalhos dos alunos. Assim como é ler alguns blogs que estão por aí, à deriva na internet.
Mas ortografia às vezes atrapalha, incomoda, não nos deixa dizer as coisas com a devida sonoridade. Não permite que enchamos a boca com a palavra e façamos um gargarejo, antes de cuspí-la na conversa. Hmmm, essa palavra tem um gosto amadeirado, com um toque de maçã. É suave, porém safada.

E quem nunca sentiu um prazer todo especial em dizer rúbrica? Uma delícia. Substântivo! E tem também aquelas palavras cativas, que se pudéssemos incluiríamos em todas as conversas. Intrínseco. Falácia. E em outras línguas, conundrum (essa é minha preferida absoluta em inglês), popular (com sotaque estadunidense). E expressões. A mi me encanta. Poesia pura.
Rubem Alves disse, na Folha de domingo, que toda leitura tem seu ritmo. E eu sempre senti isso. Tem coisas que simplesmente devem ser ditas de uma certa maneira, ou perdem sentido. Seja pela aliteração, pela pontuação, ler bem significa captar o ritmo certo. Mas as palavras também tem música própria, e quando prestamos atenção, podemos encontrar belíssimas sinfonias. É como se cada letra fosse uma nota; cada sílaba um acorde. Sendo assim, podemos ter más combinações de acorde e tempos errados. Essa característica das palavras explica ao mesmo tempo más construções frasais e as palavras que intuímos estarem escritas de forma equivocada. Elas devem estar em outro tipo de escala musical. Talvez aquela oriental, baseada não em 7, mas em 12 notas.


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2 respostas

9 06 2004
luloser

Caro indivíduo do mundo digital, os Bloggers são a extensão do pensamento do homem virtual. Por assim ser, encontrei nos caracteres aqui postados, muitas coisas em comum com as idéias na minha mente depositadas… quem sabe não pensará o mesmo ao dar uma deslizada na virtualização do meu pensamento?!

18 06 2004
Ashen Lady

Concordo com o post. E uma das palavras que eu adoro pronunciar é Ituzaingó. É tupi-guarani, mas não sei o que significa. É só o nome de uma praça do meu bairro, mas é muito gostosa de pronunciar.

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