Serendipity

23 06 2004

Já passara das duas da manhã, e eu lá, sem conseguir dormir. Tinha ido cedo para a cama naquele dia, mas acordara pouco depois da meia-noite. Desde então, só rolava na cama, enrolando-me nos lençóis da maneira que só os insones conhecem. Foi quando ouvi um som vindo lá de baixo. Sempre tive medo desses barulhos noturnos. São os móveis encolhendo com o frio, costumava dizer minha mãe. Permaneci ali, deitado, de olhos bem abertos, esperando que algo acontecesse. Nada. Silêncio. Tenso, esperei alguns minutos mais. Bons e longos minutos. Acabei por criar coragem – sabia que não pegaria no sono até descobrir a origem do barulho. Saí da cama e, sorrateiramente, fui andando na direção das escadas. Quando já estava nos últimos degraus, percebi um tênue facho de luz saindo por baixo da porta da biblioteca. Pé ante pé, aproximei-me da porta. Mas, como sempre acontece quando queremos ser silenciosos, meu joelho deu um estalo surdo, daqueles que reverberam por todo o ambiente. E a luz se apagou.
Abri a porta com todo o cuidado. Já imaginava um ladrão, e tentava encontrar algo para me defender. Entrei. Liguei o interruptor, mas não havia nada lá. Ou melhor, ninguém. Comecei a considerar a possibilidade de estar no limbo entre o dormir e o despertar – quando pequeno fui um sonâmbulo contumaz, e já tinha uma certa experiência no assunto. Olhei em volta uma vez mais e decidi: era fruto da minha imaginação. Meu coração ainda palpitava de ansiedade, e eu podia ouvir cada uma das batidas com uma clareza impressionante. Mas havia algo de estranho. Um eco. Como se minha cabeça estivesse vazia, e cada som que saía do meu corpo tivesse uma segunda voz. Sentei-me na familiar poltrona, de livros e cochilos, para recuperar o fôlego. Havia algo de muito estranho naquela noite. Foi então que vi. Num canto, atrás de uma pilha de cadernos antigos. Vi a mim. Eu mesmo, sentado, encolhido. Caderno na mão, lápis na outra.
Finalmente, entendi. Após anos e anos de procura, finalmente havia me encontrado. Ou melhor, havia me surpreendido. Me surpreendi escrevendo, escondido. Encontrei-me num cantinho escuro da minha própria biblioteca. Não planejei tal encontro. Não procurei tal ofício. Na verdade, fugi. Fugi daquela coisa de escrever. Mas não adiantou. O destino conspirara e não havia para onde ir. Não havia nada que eu pudesse fazer. Simplesmente era assim, e o melhor era aceitar logo e continuar com a vida. Resignar-me.
Escrever eu não escolhi. Escrever me escolheu. Descobri-me, nas penumbras do inconsciente, um escrevinhador. Escritor não digo. Escritor é alguém que vive de escrever. E posso viver de outra coisa, mas quero viver para isso.


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8 respostas

23 06 2004
Van

Escritor ou escrevinhador, caçador de sonhos ou inventor de realidades; títulos são o que menos importam. O que importa é que o talento é seu e não há como passar aqui e não querer voltar. Beijos.

23 06 2004
Cunha

agora esse eu achei muito ruim, muito enrolado. Mas isso eh questao de gosto.

23 06 2004
Re

Lembrei dum filme do David Lynch, chamado estrada perdida, onde a personagem principal chega na porta de sua própria casa e toca o interfone, e a voz que responde é dela… V6e o filme, vê, acho q vc vai gostar.

23 06 2004
Jr.

ainda bem que vc foi encontrado, pois seria um talento desperdiçado… Jr.

23 06 2004
Sam

Você me prende com suas palavras, com seus pensamentos…Muito, muito bom!!!! Bjks!!!

25 06 2004
b.m.

Se escrever me escolheu, acho que ele foi mais ardiloso. Se fez amigo, logo necessidade. Hoje, às vezes, me coloca uma faca no pescoço e diz: “escreve”. Não tenho escolha.

27 06 2004
Kakashi

mto bom esse texto tb, mas preferi o do big bang…

6 07 2004
Flavinha

Ola…. Fiquei curiosa com seus textos…parece algo assombroso e de repente uma confissao qse de um adolescente apaixonado Adorei isso! Parabens pelos textos e criatividade Flavia… bby doll

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