- Pri?
- Sim, Má?
- Quantas vezes sonhei com isso. Essa valsa, o casamento… Sei que não costumam mais fazer isso, mas sempre quis uma valsa em meu casamento… E você. Linda, como sempre, olho no olho… apaixonados…
- E eu? Imaginava-me num vestido lindo, guiada por seus passos firmes, seus braços fortes… Flutuando entre seus pés e as nuvens… Nessa noite linda… Céu estrelado.
- É. Quantos amigos eu não via há tempos. E o Padre? Acho que foi o melhor sermão que já ouvi.
- Como se você tivesse ouvido muitos.
- É, é verdade. Não costumo prestar atenção, sempre acabo me distraindo no meio. Mas foi incrível: ele falou para mim. Cada uma, e todas as suas palavras, vindo na minha direção.
- Mas claro que foram para você! Quando a gente casa, o padre fala com a gente. É bem diferente de Missa. Aliás, você estava lindo no altar. Não só lindo. Radiante. Dava para sentir sua alegria. E o nervosismo, a emoção. Chorou, eu vi.
- Claro que sim, você me conhece… Choro em todos os casamentos, não ia chorar no meu?
- Tem razão… Hahaha… Faz parte, né?
- É. Mas não foi só isso. Foi ver que daquele momento em diante, após aquele sim, nada mais seria igual. Poucas vezes em nossa vida percebemos que tudo está mudando. Esse é um deles. E eu estou muito feliz. Sinto como se minha vida estivesse começando agora… Tudo o que vivi até agora foi só um ensaio.
- Sei o que você quer dizer. A sensação é maravilhosa, não?
- É. E esses anos ao seu lado também foram. Cada sorriso. Cada lágrima. Não me arrependo de nada… Claro, errei, erramos, bastante. Mas foi justamente o que tornou nossa relação tão especial. Arrepender-me… não me arrependo.
- Ah, Marcos. Como eu queria ter feito as coisas direito. Tantas discussões sem motivo. Tanto ciúme e controle. Tantas bobagens…
- Não é bem assim. Você sabe que agimos assim simplesmente porque não pudemos agir de outro jeito. Não soubemos. Essas coisas a gente só aprende batendo a cabeça, se magoando. Fico feliz que não tenhamos feito mal demais. Não fosse aquilo, não teríamos chegado a isto.
- …
- Pri? Quero dizer uma coisa.
- Pode falar…
- Obrigado. Obrigado por me ensinar o que é amor. Obrigado por me ensinar a ser feliz. Por fazer de mim um homem melhor. Por…
- Shhhh… Não precisa dizer, querido. Eu sei. Sinto o mesmo. Você foi assim para mim também. Mudou minha vida, mudou quem eu sou. Você ser feliz é todo o agradecimento de que preciso. Além do mais, o que eu fiz por você e você por mim, não pode ser retribuído.
- É. Você tem razão.
- …
- E ela… É linda, não?
- É sim. Acho que eu não teria escolhido melhor.
- Mas você escolheu. Escolheu tão bem quanto eu… Pri, eu sempre vou amar você. Acho que o amor é incondicional, mas pessoas não são. Pessoas, eu e você, precisam de coisas, e a única forma que eu e você pudemos ter essas coisas foi assim, separados. Nós dois não podíamos ser.
- Eu sei. Você fez o que pude, eu fiz o que pude. No fim, o que restou foi muito mais do que o que tínhamos antes. Ela é a pessoa que eu não pude ser para você. E tem duas coisas que me deixam realmente feliz hoje.
- Quais?
- A primeira, que você esteja feliz. A segunda, que eu fique feliz por isso. Nós conseguimos. Chegamos ao ponto em que entendemos um ao outro, nos respeitamos, e podemos querer a felicidade sem barreiras. Sem senão.
- Eu amo você, Pri.
- Também te amo, Má. Mas agora é a vez dela. Já te segurei demais. Vai lá. Vai dançar com a mulher da sua vida.
- Já vou. Antes, uma última coisa.
- O quê?
- Seja feliz, amiga.
- Você também, amigo.
