Valsa

8 07 2004

- Pri?

- Sim, Má?

- Quantas vezes sonhei com isso. Essa valsa, o casamento… Sei que não costumam mais fazer isso, mas sempre quis uma valsa em meu casamento… E você. Linda, como sempre, olho no olho… apaixonados…

- E eu? Imaginava-me num vestido lindo, guiada por seus passos firmes, seus braços fortes… Flutuando entre seus pés e as nuvens… Nessa noite linda… Céu estrelado.

- É. Quantos amigos eu não via há tempos. E o Padre? Acho que foi o melhor sermão que já ouvi.

- Como se você tivesse ouvido muitos.

- É, é verdade. Não costumo prestar atenção, sempre acabo me distraindo no meio. Mas foi incrível: ele falou para mim. Cada uma, e todas as suas palavras, vindo na minha direção.

- Mas claro que foram para você! Quando a gente casa, o padre fala com a gente. É bem diferente de Missa. Aliás, você estava lindo no altar. Não só lindo. Radiante. Dava para sentir sua alegria. E o nervosismo, a emoção. Chorou, eu vi.

- Claro que sim, você me conhece… Choro em todos os casamentos, não ia chorar no meu?

- Tem razão… Hahaha… Faz parte, né?

- É. Mas não foi só isso. Foi ver que daquele momento em diante, após aquele sim, nada mais seria igual. Poucas vezes em nossa vida percebemos que tudo está mudando. Esse é um deles. E eu estou muito feliz. Sinto como se minha vida estivesse começando agora… Tudo o que vivi até agora foi só um ensaio.

- Sei o que você quer dizer. A sensação é maravilhosa, não?

- É. E esses anos ao seu lado também foram. Cada sorriso. Cada lágrima. Não me arrependo de nada… Claro, errei, erramos, bastante. Mas foi justamente o que tornou nossa relação tão especial. Arrepender-me… não me arrependo.

- Ah, Marcos. Como eu queria ter feito as coisas direito. Tantas discussões sem motivo. Tanto ciúme e controle. Tantas bobagens…

- Não é bem assim. Você sabe que agimos assim simplesmente porque não pudemos agir de outro jeito. Não soubemos. Essas coisas a gente só aprende batendo a cabeça, se magoando. Fico feliz que não tenhamos feito mal demais. Não fosse aquilo, não teríamos chegado a isto.

- …

- Pri? Quero dizer uma coisa.

- Pode falar…

- Obrigado. Obrigado por me ensinar o que é amor. Obrigado por me ensinar a ser feliz. Por fazer de mim um homem melhor. Por…

- Shhhh… Não precisa dizer, querido. Eu sei. Sinto o mesmo. Você foi assim para mim também. Mudou minha vida, mudou quem eu sou. Você ser feliz é todo o agradecimento de que preciso. Além do mais, o que eu fiz por você e você por mim, não pode ser retribuído.

- É. Você tem razão.

- …

- E ela… É linda, não?

- É sim. Acho que eu não teria escolhido melhor.

- Mas você escolheu. Escolheu tão bem quanto eu… Pri, eu sempre vou amar você. Acho que o amor é incondicional, mas pessoas não são. Pessoas, eu e você, precisam de coisas, e a única forma que eu e você pudemos ter essas coisas foi assim, separados. Nós dois não podíamos ser.

- Eu sei. Você fez o que pude, eu fiz o que pude. No fim, o que restou foi muito mais do que o que tínhamos antes. Ela é a pessoa que eu não pude ser para você. E tem duas coisas que me deixam realmente feliz hoje.

- Quais?

- A primeira, que você esteja feliz. A segunda, que eu fique feliz por isso. Nós conseguimos. Chegamos ao ponto em que entendemos um ao outro, nos respeitamos, e podemos querer a felicidade sem barreiras. Sem senão.

- Eu amo você, Pri.

- Também te amo, Má. Mas agora é a vez dela. Já te segurei demais. Vai lá. Vai dançar com a mulher da sua vida.

- Já vou. Antes, uma última coisa.

- O quê?

- Seja feliz, amiga.

- Você também, amigo.





Última

17 05 2004

Passei os últimos anos procurando a próxima. A próxima garota por quem me apaixonar, a próxima a quem beijar, a próxima a dividir minha cama, meus sonhos. Essa busca acabou. Não procuro mais a próxima. Não existem mais primeiras, segundas, vigésimas. Procuro a última. A última mulher a quem me entregarei. E não me importará quantos ou quem ela já teve ao seu lado. Importará apenas que eu serei o último. E últimos seremos os dois.





O prazer nosso de cada dia

10 05 2004

Amor, felicidade, sofrimento. Tudo isso tem sido tema freqüente em minhas conversas, em meus pensamentos. E uma das conclusões às quais cheguei é que o dia em que crescemos é o dia em que deixamos de ser hedonistas.
Somos todos hedonistas quando nascemos. O hedonismo guia nossa existência, seja quando estamos à procura de sexo, comida, paixão – amorosa ou não – ou qualquer outro prazer dito da carne. Esse é um mecanismo biológico que nos mantém vivos. Li que se não tivéssemos prazer em comer ou nos reproduzir poderíamos nos esquecer disso, e nossa espécie seria extinta rapidamente. Mas o dia em que crescemos, e mais, em que descobrimos a felicidade verdadeira, é o dia em que paramos de deixar nosso lado hedonista nos controlar. O dia em que reconhecemos que temos anseios animais e percebemos que podemos perder coisas muito valiosas ao dar vazão a eles. Sem rodeios: o dia em que aprendemos a não ser tão egoístas e a nos controlar para não machucar a quem amamos. O desejo faz parte do homem, e quanto a isso não podemos fazer nada. Mas o homem é mais do que um animal e pode controlar seus desejos. Superego é a palavra-chave. O problema é que também não dá pra ficar simplesmente reprimindo esses desejos. Se for assim, uma hora não resistiremos. Fico, então, imaginando a melhor saída para esse dilema. Reconhecer que somos humanos, demasiado humanos, como diria Nietzsche, é um grande passo. Então, quando encontramo-nos, literalmente, face a face com a tentação, o hedonismo clamando a posse de nossas ações, como agir? Aceitar que podemos querer algo que não devemos. Entender que tudo podemos, mas nem tudo devemos. Controlar esse desejo e afastar-se.
Fugir! Não há nada de errado em escapar fisicamente a um desejo. O problema da tentação é que cedo ou tarde ela nos convence. Como disse Oscar Wilde, resisto a tudo, menos à tentação. Mas se nos rendermos à ela, acabaremos atormentados por nossa consciência, pela culpa, e ainda correremos o risco de perder aquilo que amamos. E o dia seguinte? A ressaca moral de ter feito algo realmente errado?
O ideal seria nos armarmos para uma situação dessas. Porque sempre sentiremos desejo, e isso não tem nada a ver com a pessoa que gostamos, não é falta de amor, de tesão, de paixão. É simplesmente uma condição humana. Então deveríamos nos preparar psicológicamente para esses momentos. Controlemos melhor nossas ações, cerquemo-nos de amigos que querem nosso bem, que não ficarão nos colocando em situações difíceis e que, mais que isso, nos aconselharão a fazer o certo. Amigos que nem sempre irão dizer o que queremos ouvir. Afinal, como eu disse, mais hora, menos hora, nos convencemos a ceder. E se chegarmos ao ponto do “Melhor não…”, talvez tenhamos ido longe demais. E, nessa hora, um amigo pode fazer toda a diferença. Um amigo que nos faça refletir, pode impedir que nos precipitemos no erro. Assim como um amigo que não vê nada de errado pode nos dar o empurrãozinho de que precisamos para fazer algo de que vamos nos arrepender.
Mas existe outra questão. Não podemos simplesmente dizer que não queremos algo que não conhecemos. Para escolher bem, precisamos escolher mal. Escolher errado, para depois descobrir que não queremos mais escolher errado. Se não sabemos o valor de uma coisa, o que ela representa para nós, se não sabemos a que estamos renunciando, não podemos honestamente dizer que não a queremos mais. Desistir de uma coisa por outra coisa significa entender que precisamos mais de uma coisa do que de outra. Mas se não conhecemos completamente uma das coisas, como podemos decidir isso?
E só podemos entender completamente essa escolha, essa renúncia à busca rápida do prazer, quando encontramos um amor verdadeiro. Não porque ele nos impede de pensar em outras pessoas. Na verdade, estando muito bem com a pessoa que amamos podemos sentir a vontade de algo mais, ao passo que estando numa crise difícil, é possível que não tenhamos essa ânsia. Mas porque descobrimos que a felicidade é muito mais do que um prazer atrás do outro. Que a felicidade não é sentir mais prazer do que dor. Para ser sincero, a felicidade através do amor – de homem para mulher, de pai para filho – traz uma grande quantidade de dor também. Mas isso tem uma importância menor porque, uma vez que você ama, as coisas são simplesmente diferentes. Quando a dor dá um descanso para seu coração, você sentirá uma felicidade estranha, diferente. Isso é amor. Amor é algo que, no fundo, pode ser independente do ser amado. Mesmo sem essa pessoa que balança nosso coração, a gente simplesmente é feliz. Sei que parece estranho, mas é verdade. O que traz dor é a angústia, a decepção, o medo, a saudade. Quando isso some do horizonte, um sentimento bom transparece. E acho que uma vez que você começa a amar, simplesmente não consegue deixar de.
Cheguei à conclusão de que paixões não valem o sacrifício de nossa paz, de um amor. E quando aprendemos isso, estamos aptos a adiar o prazer, algo que buscamos a vida inteira. Você dá uma bala para a criança e diz: se você não chupar essa bala até o fim da semana, eu te dou 10 balas iguais. Ou se você trocar prazeres fugazes por um amor verdadeiro e sincero, viverá uma vida com mais paz interior e felicidade.
Também descobri que podemos nos apaixonar continuamente pela mesma pessoa. E aí entendi porque os mais experientes dizem que um relacionamento dá trabalho, mas que é fácil quando é a pessoa certa. Um relacionamento dá trabalho porque você precisa se esforçar para mantê-lo funcionando bem, para continuar se apaixonando todos os dias, mas é fácil porque esse esforço é prazeroso.
Divago, eu sei. Mas é preciso.
Enfim, quem vive de calafrios talvez não descubra o que é ser feliz no amor. Procurar apenas o prazer, muitas e muitas vezes. Isso não tem fim. E amar é um fim em si só. Não quero mais ser um hedonista. E tenho a impressão de que ser feliz é acordar de manhã e ser capaz de encontrar algo para sorrir.





O divórcio de Romeu e Julieta

5 05 2004

Li um texto, certa vez, que dizia que o único romantismo verdadeiro era fazer um sacrifício pelo ser amado sem que ele viesse a saber. Também dizia que isso era uma das coisas mais tristes desse gesto, pois uma vez anunciado, perdia o valor. Estive pensando em relacionamentos ultimamente, tentando entender o que deu errado no meu. E cheguei à conclusão de que esse tipo de sacrifício não é romantismo. Isso é fadar o relacionamento ao fracasso. Ninguém faz nada de graça. E ninguém tem culpa disso. Todos os atos que realizamos são, sim, egoístas. Se procuramos agradar quem amamos é porque o amor nos faz agir dessa forma. Porque isso nos faz felizes. Mas eventualmente vamos cobrar um preço por nossas renúncias.
Não que não devamos nos sacrificar pela pessoa amada. Pequenos sacrifícios são parte do amor. Mas eles devem vir dos dois lados. E mais, não devem significar a morte de um lado que nos é essencial. Na hora de uma crise, é claro que faremos o que é preciso. Sacrificaríamos tudo o que temos para estar com a pessoa que amamos. Mas, sinceramente, qual é a coisa mais importante na sua vida? Para mim, e descobri isso com o fim do meu namoro, é escrever. E se eu tivesse que desistir de escrever para estar com a pessoa que amo, acabando com toda a dor e sofrimento que eu e ela temos sentido, eu o faria. Faria porque amo, porque sinto dor e sofrimento. Mas um dia, eu me colocaria diante dessa escolha novamente. E, francamente, não sei se posso viver sem escrever. Não há nada pior do que ser escolhido e depois desescolhido. Nunca devemos cobrar um preço tão alto de alguém, porque esse é o preço do fim. E quando você perceber, poderá ser tarde demais.
Sacrifícios extremos por amor só funcionam nos livros ou filmes, mas eles nunca mostram o fim. Romeu e Julieta. Poderiam eles ser felizes se Romeu tivesse sabido do estratagema do falso veneno? Um dia, muitos anos depois, longe de casa, os dois teriam saudades de seus pais, de seus amigos, de suas vidas. E a escolha pesaria sobre ambos. Um fantasma assombraria seu amor. O casamento fatalmente sofreria. Porque o problema das escolhas difíceis é que temos que fazê-las todo dia. E uma hora elas serão tentadoras demais. Todos temos nosso preço, e quando os sacrifícios atingem esse valor, tudo poderá se perder. Talvez, e isso bem provável, essa escolha arruinasse a maior das histórias de amor. E é por isso que o final de Romeu e Julieta é perfeito. Juntos, provavelmente eles se castigariam para sempre por essa decisão. Se ambos não tivessem morrido, provavelmente não teríamos uma belíssima história de amor. Teríamos um drama, o fim de um relacionamento. Ou uma sitcom.
Não acho que não devamos fazer algumas escolhas difíceis num relacionamento. Mas será que podemos mesmo renunciar a algo fundamental em nossa vida para estar com essa pessoa? Não existe outra maneira? Devemos nos sacrificar em alguns momentos por quem amamos, e sem esperar nada em troca. Mas ou recebemos algo em troca, ou o relacionamento fica desigual. Cedo ou tarde a escolha nos alcança e nos faz pensar “e se?”. E será tarde demais.
E a verdade é que certos favores não se pede. E também não se cobra.