Desafio da Olivia (sem acento)

4 11 2005

Alguns meses atrás a Olivia me desafiou (e a alguns outros) a continuar um texto que ela tinha começado. O resultado, já postado por ela, eu finalmente trago para cá.

E devido e inúmeras 4 reclamações, vou dar um jeito de postar algo novo aqui de vez em quando. De início, estou com um projeto de reavaliar coisas antigas colocadas aqui. Acertar aqui e ali e ver no que dá. Uma das coisas interessantes de ler sempre, escrever sempre, e reler vez ou outra o que fez no passado, é que você nota erros tão simples de se arrumar – e outros quase impossíveis. A gente ganha mais clareza e objetividade na avaliação do texto. Então vou fazer isso. Inclusive, uma versão aprimorada de um dos meus contos eu enviei para um concurso literário. Vamos ver no que dá. Enquanto isso, leiam o texto:

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Instantes

“Infindo e onipresente, o nada envolvia cada recanto de sua consciência” – Joseph Glittergate

O quarto era escuro e a figura sentada sobre a cama não se movia. O silêncio pulsava com a cadência da sua respiração. Uma luz entrava fraca e esverdeada pela fresta de janela aberta e iluminava um retângulo na parede oposta. As mãos apoiadas na borda do colchão e os pés em simetria tocando o chão. Uma espécie de ruído chegava da rua; carros passando e prostitutas que conversavam com vozes esganiçadas.

Ele não ouvia, imerso em seu mundo estático de sombras. Era o silêncio e o silêncio nascia dele, em ondas, inspirando e expirando.

Um quarto sujo de um hotel pobre em um bairro esquecido, ele pensava, e pensava também em outros adjetivos que poderiam caber naquele lugar tão feio. E tomou todos aqueles adjetivos para si conforme os enumerava, e os adjetivos sentavam-se ao seu lado e o tomavam para si também. Decadente, abandonado e triste, e outros tantos adjetivos que quando muito juntos perdiam o significado e viravam seqüências idiotas de sons.

Passos no corredor. Fugiram os adjetivos e o silêncio se escondeu embaixo da cama. O homem levantou-se e fez ranger as molas do colchão, e o silêncio pulou pela janela.

Decidiu. Da cabeceira, assomou a arma. Retesou o pulmão. Engatilhada, o cano aproximou-se sem emitir som. O silêncio gritou um aviso, a bala respondeu num dó torto. E o silêncio voltou ao recinto.

Desta vez, permanente.





Crocodilismo

18 01 2005

Já nem se lembrava quando foi a última vez, só sabia que isso significava muito tempo. Quando a gente não lembra mais de uma coisa, é porque já faz pelo menos uns anos que não fazemos. E fazia. Foi daquela vez, quando a menina disse que não o queria mais. Ele olhou pra ela e quis mandar à merda. Mas só conseguiu dizer “tchau, seja feliz então”. E saiu andando pela rua, até em casa, chorando. Foi esse o dia. Desde então, até esquecera o que era isso. Vá lá, chorara umas duas vezes bêbado, mas bêbado chora por qualquer coisa.

Não era das lágrimas que sentia falta, era daquela moleza-quase-sono que sentia logo depois. Ah, era tão bom. Uma vez brigou com a irmã, feio mesmo, e se escondeu na lavanderia para chorar. Chorou por uns vinte minutos e adormeceu. Só quem já chorou até dormir sabe como é gostoso.

O mais engraçado é que fora um chorão. Daqueles que um simples insulto transforma a raiva em lágrimas. E, como viver é conformar-se, passou a gostar de chorar. Cativava aquele sentimento, aquele alívio pós-choro. Caprichava até nos soluços, para tirar o máximo de cada lágrima.

Mas aí, um dia qualquer, decidiu que queria ser feliz. Decidiu que não iria mais chorar, porque quem chora é fraco e infeliz. E parou. Foi logo depois da ruivinha que se enchera dele. Ao chegar em casa, enxugou as lágrimas e disse pro espelho: eu nem queria mais ela mesmo. E continuou com a vida.

Depois disso teve duas morenas, uma loira e outra ruiva. Teve até um cachorro que morreu de velhinho, coitado. Mas nunca mais derrubou uma lágrima. Quando sentia uma vontade muito grande de chorar, chorava para dentro. Acabou por desaprender, e só percebeu como fazia falta no dia em que morreu a mãe, de mal súbito. As pessoas nessas histórias sempre tem males súbitos. Então ela morreu, e no enterro viu todos chorando. Mas ele, ele, não conseguiu. Olhava o pai e a irmã derretendo-se em lágrimas, mas daqueles olhos não saía nada. Aquela situação o deixou muito incomodado. Descobrira que as lágrimas traziam conforto, e que por não sentir essa tristeza toda, também não sentia felicidade completa. Além de tudo, não chorar deixava os outros inquietos, como se ele fosse o único a não beber numa mesa de bar.

Voltou pra casa e ficou treinando. Pensou nas coisas mais tristes de que se lembrava. Da vez em que o avô morreu. Quando o melhor amigo mudou de cidade. E daquela vez em que foi despedido do emprego porque um colega puxou seu tapete. Mas nada, não veio uma lágrima sequer. Nem quando se casou, ou quando o pai teve câncer, conseguiu chorar.

Aí, quando o câncer venceu o pai, decidiu que precisava solucionar a coisa toda. Foi numa dessas lojas de mágica e comprou um daqueles óculos de palhaço, que jorravam lágrimas na platéia. Quando chegou no velório, os presentes olhavam para ele, mas dessa vez estavam mais aliviados: ele estava chorando. Tão aliviados estavam que nem percebiam o ardil.

E foi assim que passou a carregar sempre os tais óculos. Se precisava chorar, colocava-os e pronto, choro na quantidade que desejasse. O mais estranho é que ninguém percebia. Tornara-se tão bom em chorar nos momentos certos que ninguém notava que as lágrimas eram de mentira.

Sua esposa, outra ruiva, engravidou e perdeu o filho. E ele, com os óculos. Decidiram tentar novamente e dessa vez, tudo correra bem. Na maternidade o médico veio e disse: parabéns, é um menino. E mais uma vez, chorou.

Mas os óculos, estes ficaram em casa.





O Método

2 12 2004

Era assim todo dia. Acordava e via os sapatos dançando à sua frente. Marrom, preto. Nunca conseguia escolher automaticamente. E isso era só o começo. Depois, tinha que escolher a meia e a calça e a camisa e a gravata. Leite quente ou frio? Café ou chocolate? Era dilema atrás de dilema.
E tinha sido assim desde a vida inteira. Enquanto era novo, não era um grande problema. Para ir para escola tinha o uniforme. E a mãe era daquelas controladoras. Escolhia o corte de cabelo, comprava as meias e cuecas.
Mas foi ficando mais velho e começaram a pressionar. Oquevaiserquandocrescer? Aí, carro, namorada, raça do cachorro. Sabor do sorvete. Já não agüentava mais. Cada refeição era uma decisão. E cada decisão doía pra caramba. Até o McDonald´s tirava o fôlego: número 2 ou 5? Sundae acompanha?
Era um indeciso, vivia um não-viver. Toda escolha implica em perda, e ele era o pior perdedor que conhecia. Chegou mesmo a pensar em suicídio, mas não conseguiu escolher entre cortar os pulsos, tomar remédios ou pular do terraço do sétimo andar.
Foi quando teve a idéia. Ia virar personagem do Maurício de Souza: usar sempre calça preta com camisa verde e comer só melancia. Assim, não precisaria se preocupar com as escolhas nunca mais. Monocromatizou o armário, padronizou respostas. Número 1 por favor. Fritas? Sim. Torta de banana? Sim. Sempre dois sims. Se tivesse mais alguma coisa era não, afinal não era nenhum abastado.
Conheceu uma garota, começaram a namorar. Estava tão craque nas respostas que ela nem percebia o quanto as alternativas atormentavam sua cabeça. Ela só ficava intrigada com a mania dele de dizer sim a qualquer coisa, e não aos maiores absurdos. Vamos ao parque? Sim. Fazer um piquenique? Sim. Vamos de táxi? Não. E tinham que caminhar cinco quilômetros. Tudo para não fugir ao sistema.
Com o tempo, foi ficando paranóico. Nada podia fugir ao simsimnão. E isso só trouxe problemas. Pode trabalhar até tarde? Sim. Posso furar a fila? Sim. Passa o sal? Não.
Apesar das dificuldades, resolveram se casar. (ela resolveu, ele só fez que sim com a cabeça). E os preparativos começaram. Sim para a igreja, sim para o padre, não para as flores. Sim buffet, sim smoking, não aos músicos. E ele batia o pé. Quando era não era não. Ela começou a achá-lo muito teimoso, pensou até que não a amava. Botou ele na parede, e ele confessou: não sabia o que queria da vida. Ela sugeriu terapia. Ele concordou. Com o Dr. Ribeiro. Claro. Duas vezes por semana. De jeito nenhum.
Meses de tratamento e ele começou a sentir-se seguro o suficiente para escolher pequenas coisas, sem utilizar o método. Já estava se acostumando a pequenas decisões. O médico ensinou-o a fazer escolhas aos poucos. Frango? Não. Salmão? Sim. Desde que tudo fosse uma questão dialética, sim ou não, tudo estaria bem.
No jantar de noivado, finalmente conheceu os sogros. Antes de pedir a conta, conseguiu, triunfante se decidir: sim, queria um cafezinho. E o garçom, solicito, indagou: longo, curto ou expresso.





Picaretagem

28 07 2004

Estou na minha última semana no trampo, correndo pra organizar minha viagem e, portanto, sem tempo. Por isso, seguirei o exemplo da Renata e vou postar aqui o texto originalmente Anonymus. Assim, quem quiser comenta, quem não quiser não comenta e quem já leu nem precisa perder tempo e ler de novo. De qualquer maneira, tem um outro texto mais ou menos no ar, semana que vem eu coloco.

Bela e só

De parar o trânsito. De fechar o comércio. De tirar o fôlego. Pedaço de mau caminho. Colírio para os olhos. Era como se todos os clichês sobre beleza tivessem sido escritos pensando nela. Sua presença estonteava a todos, por onde quer que passasse. As longas madeixas negras faziam par-perfeito com a brancura leitosa de sua pele. Os olhos, de um azul profundo, brilhavam como se a luz do Sol tivesse sido concentrada em dois pequenos pontos em sua face. Seu desejado corpo era ao mesmo tempo curvo e retilíneo. Por onde andava, cabeças viravam, comentários eram feitos, corações suspiravam. Alvo da cobiça dos homens e da inveja das mulheres.
Como se não bastasse, pecado maior, tinha opiniões próprias. Poderia facilmente ter sido modelo-manequim-atriz mas, sua beleza, ainda que benção, era uma maldição. Sofria por ser vista como objeto e qualquer carreira que visse a beleza como talento não traria o sucesso que procurava. Afinal, ela não tinha feito nada mais do que dar a sorte nos dados genéticos.

Sentia como se durante toda a vida tivesse sido usada. Tanto pelos homens quanto pelas mulheres. Certa vez, ouvira um comentário sobre mulheres bonitas que a deixou profundamente incomodada. Como assim namorar alguém bonito dava trabalho? Como assim o assédio era tal que uma hora alguém a convenceria a trair? Ou trocar? Ouvira também uma piada, sobre mulheres bonitas e melancias, mas essa era vulgar demais para levar em consideração. De qualquer maneira, não conseguia encarar as coisas dessa forma. Acreditava no amor, em se comprometer com uma só pessoa para sempre. Não sabia como era o mundo da perspectiva de alguém que não gostava do que via no espelho. Para ela, ciúme e insegurança eram palavras sem muito sentido.

Sentia que todos os homens que se aproximavam só o faziam para depois poder comentar: tá vendo aquela gata ali? Catei. Houve época em que isso a deixava orgulhosa, envaidecida. Hoje percebia que era algo realmente terrível. Ninguém nunca tinha intenções maiores do que um beijo, uma conquista. Ninguém gostaria de namorá-la por quem era, e sim pelo que aparentava. Sentia-se um troféu: brilhante por fora e vazia por dentro. Desejava ser fácil, para que pensassem que não era assim uma conquista tão grande. Tentou isso por um tempo. Chegou mesmo a abordar rapazes, embora fosse contra essa inversão de papéis. Mas logo percebeu que esse comportamento só aumentava sua solidão.

Mesmo aqueles que estiveram no seu coração, aqueles a quem ela havia deixado entrar, não deixaram nunca de olhar para sua beleza. Nunca procuraram conhecer suas idéias sobre o existencialismo ou a fascinação que tinha por Álvaro de Campos. Nunca se interessaram sobre as coisas de que ela gostava. Nunca olharam para ela. Era refém da própria imagem, cujo brilho ofuscava a pessoa que tinha dentro de si. Se, como dizem, beleza interior é invenção dos feios, para os belos é um ideal inatingível. Ser bonita por fora e por dentro é inaceitável. Injusto, até. Só que o que ela via no espelho era muito diferente do que os outros viam quando a olhavam.

Passou a se esconder. Amizades, preferia as virtuais. Não mostrava sua foto quando pediam: era melhor que a imaginassem feia. Algumas vezes chegara a fazer o contrário da maioria, e mostrara uma foto qualquer, de uma pessoa imbonita. Sentia-se como aqueles príncipes das comédias românticas, que se faziam de plebeus para poder descobrir o verdadeiro amor. Beleza é um pecado inconfessável. Mesmo que todos vejam e comentem, não se pode nunca admitir. Quem admite a própria beleza torna-se fútil aos olhos da sociedade. Ninguém percebe que a beleza é uma prisão em que as visitas sempre têm um interesse malicioso. Fossem as amigas-rêmora que se aproximavam para ficar com as sobras, fossem os meninos que buscavam uma façanha para se gabar com a turma. Vivia cercada de cafajestes e interesseiras.
Mas o que realmente não conseguia compreender era o fato de que muitas pessoas preferiam alguém menos inteligente, menos bonita, menos legal. Como alguém podia desejar alguém menos? Toda a sua vida sempre procurou um homem que fosse incrível, maravilhoso em todos os sentidos. Todos diriam para ela: tirou a sorte grande, hein? E diriam o mesmo a ele. Mas ouvira mais de uma vez que era melhor ter alguém normal, menor, mediano. Medíocre. Na média. Ninguém incrível, ninguém famoso, ninguém competente. Simplesmente uma pessoa comum, dessas que existem às pencas.

Estava desiludida, magoada com o mundo. Temia nunca encontrar alguém que realmente olhasse para ela, e não para seu brilho. Temia continuar a ser o prêmio na estante de cada homem com quem se relacionava. Temia que não confiassem nela. Temia que a máscara que a obrigavam a usar nunca pudesse ser quebrada. Mas seu maior medo, aquele que não confessava a ninguém, era passar a vida sem encontrar alguém que tivesse coragem de amá-la.





Valsa

8 07 2004

- Pri?

- Sim, Má?

- Quantas vezes sonhei com isso. Essa valsa, o casamento… Sei que não costumam mais fazer isso, mas sempre quis uma valsa em meu casamento… E você. Linda, como sempre, olho no olho… apaixonados…

- E eu? Imaginava-me num vestido lindo, guiada por seus passos firmes, seus braços fortes… Flutuando entre seus pés e as nuvens… Nessa noite linda… Céu estrelado.

- É. Quantos amigos eu não via há tempos. E o Padre? Acho que foi o melhor sermão que já ouvi.

- Como se você tivesse ouvido muitos.

- É, é verdade. Não costumo prestar atenção, sempre acabo me distraindo no meio. Mas foi incrível: ele falou para mim. Cada uma, e todas as suas palavras, vindo na minha direção.

- Mas claro que foram para você! Quando a gente casa, o padre fala com a gente. É bem diferente de Missa. Aliás, você estava lindo no altar. Não só lindo. Radiante. Dava para sentir sua alegria. E o nervosismo, a emoção. Chorou, eu vi.

- Claro que sim, você me conhece… Choro em todos os casamentos, não ia chorar no meu?

- Tem razão… Hahaha… Faz parte, né?

- É. Mas não foi só isso. Foi ver que daquele momento em diante, após aquele sim, nada mais seria igual. Poucas vezes em nossa vida percebemos que tudo está mudando. Esse é um deles. E eu estou muito feliz. Sinto como se minha vida estivesse começando agora… Tudo o que vivi até agora foi só um ensaio.

- Sei o que você quer dizer. A sensação é maravilhosa, não?

- É. E esses anos ao seu lado também foram. Cada sorriso. Cada lágrima. Não me arrependo de nada… Claro, errei, erramos, bastante. Mas foi justamente o que tornou nossa relação tão especial. Arrepender-me… não me arrependo.

- Ah, Marcos. Como eu queria ter feito as coisas direito. Tantas discussões sem motivo. Tanto ciúme e controle. Tantas bobagens…

- Não é bem assim. Você sabe que agimos assim simplesmente porque não pudemos agir de outro jeito. Não soubemos. Essas coisas a gente só aprende batendo a cabeça, se magoando. Fico feliz que não tenhamos feito mal demais. Não fosse aquilo, não teríamos chegado a isto.

- …

- Pri? Quero dizer uma coisa.

- Pode falar…

- Obrigado. Obrigado por me ensinar o que é amor. Obrigado por me ensinar a ser feliz. Por fazer de mim um homem melhor. Por…

- Shhhh… Não precisa dizer, querido. Eu sei. Sinto o mesmo. Você foi assim para mim também. Mudou minha vida, mudou quem eu sou. Você ser feliz é todo o agradecimento de que preciso. Além do mais, o que eu fiz por você e você por mim, não pode ser retribuído.

- É. Você tem razão.

- …

- E ela… É linda, não?

- É sim. Acho que eu não teria escolhido melhor.

- Mas você escolheu. Escolheu tão bem quanto eu… Pri, eu sempre vou amar você. Acho que o amor é incondicional, mas pessoas não são. Pessoas, eu e você, precisam de coisas, e a única forma que eu e você pudemos ter essas coisas foi assim, separados. Nós dois não podíamos ser.

- Eu sei. Você fez o que pude, eu fiz o que pude. No fim, o que restou foi muito mais do que o que tínhamos antes. Ela é a pessoa que eu não pude ser para você. E tem duas coisas que me deixam realmente feliz hoje.

- Quais?

- A primeira, que você esteja feliz. A segunda, que eu fique feliz por isso. Nós conseguimos. Chegamos ao ponto em que entendemos um ao outro, nos respeitamos, e podemos querer a felicidade sem barreiras. Sem senão.

- Eu amo você, Pri.

- Também te amo, Má. Mas agora é a vez dela. Já te segurei demais. Vai lá. Vai dançar com a mulher da sua vida.

- Já vou. Antes, uma última coisa.

- O quê?

- Seja feliz, amiga.

- Você também, amigo.





Numismático

1 07 2004

Já fazia mais de um mês que costurara o uniforme dourado. Tinha até escolhido um nome que, modéstia à parte, era genial: Numismata. Andava com seu cinto de utilidades repleto de moedas de todos os tamanhos e valores. Seus poderes? Alto poder de avaliação e troco para qualquer valor. Sempre sonhara em singrar pelas ruas em seu Numismóvel (porque um herói não anda, singra) defendendo os fracos e oprimidos. Usava até a cueca sobre a calça: sabia que era a marca de um verdadeiro cavaleiro da justiça.
Mas, meses se passaram e ninguém precisara dele. Usava até um rádio da polícia, mas nunca chegava a tempo nos locais do crime: como ainda não fora contemplado no consórcio tinha que se locomover em ônibus e lotações. Além disso, ainda tinha que suportar as gozações dos outros passageiros, sempre grudando chicletes em sua capa e tirando sarro do collant.
Lembrava com nostalgia dos tempos de homem comum, quando o simples gesto de ceder o lugar para um idoso no ônibus ou ajudar um cego a atravessar a rua eram suficientes. Agora não. Era um herói de carteirinha e precisava de grandes feitos. Impedir o colapso de represas, desarmar bombas atômicas, desviar asteróides em rota de colisão com a Terra.
Aos poucos foi conseguindo uns bicos aqui e ali. Basicamente furadores de fila e jogadores de papel de bala pela janela do ônibus. Mas era pouco para um herói da sua estatura.
Mais ou menos nessa época, surgiu um criminoso que começou a aterrorizar a cidade. Cortava a energia do metrô, parava carros em fila dupla nos horários de pico e incitava rebeliões nos presídios. Caos era seu nome usava uma roupa preta com uma brilhante máscara prateada. Diziam que ele não possuía rosto. Era tudo o que Numismata precisava: um arquiinimigo. Um herói só é tão grande quanto seu adversário.
As terríveis disputas entre Numismata e Caos rapidamente ganharam as páginas dos diários e blocos especiais na televisão. O Globo Repórter fez até uma edição especial com os feitos e desfeitos da dupla. Legiões de adolescentes faziam fila para disputar a vaga de fiel escudeiro do bem. Enquanto isso, o Justiceiro fazia salvamentos dramáticos, sempre impedindo as catástrofes no último momento.
Boatos começaram a surgir: estranhamente, herói e vilão nunca se encontravam. A imprensa marrom publicou um dossiê, acusando o grande defensor da justiça de ser uma farsa. Um charlatão. Dizia-se que ele recebia dicas dos crimes cometidos por Caos. Mas no fim, tiveram de se retratar por falta de provas.
Com o tempo, mesmo seus desafetos tiveram de silenciar. Os salvamentos eram cada vez mais vultosos e o paladino da justiça foi condecorado pelo Comissário de Polícia e pelo Presidente. Recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Sorbonne e foi indicado para o Nobel da Paz.
As grandes obras continuaram, até o dia em que, por um engano totalmente perdoável devido à sua estressante rotina, o herói foi filmado salvando inocentes de um prédio em chamas envergando o uniforme dourado, mas tendo ainda no rosto a terrível máscara prateada.





Serendipity

23 06 2004

Já passara das duas da manhã, e eu lá, sem conseguir dormir. Tinha ido cedo para a cama naquele dia, mas acordara pouco depois da meia-noite. Desde então, só rolava na cama, enrolando-me nos lençóis da maneira que só os insones conhecem. Foi quando ouvi um som vindo lá de baixo. Sempre tive medo desses barulhos noturnos. São os móveis encolhendo com o frio, costumava dizer minha mãe. Permaneci ali, deitado, de olhos bem abertos, esperando que algo acontecesse. Nada. Silêncio. Tenso, esperei alguns minutos mais. Bons e longos minutos. Acabei por criar coragem – sabia que não pegaria no sono até descobrir a origem do barulho. Saí da cama e, sorrateiramente, fui andando na direção das escadas. Quando já estava nos últimos degraus, percebi um tênue facho de luz saindo por baixo da porta da biblioteca. Pé ante pé, aproximei-me da porta. Mas, como sempre acontece quando queremos ser silenciosos, meu joelho deu um estalo surdo, daqueles que reverberam por todo o ambiente. E a luz se apagou.
Abri a porta com todo o cuidado. Já imaginava um ladrão, e tentava encontrar algo para me defender. Entrei. Liguei o interruptor, mas não havia nada lá. Ou melhor, ninguém. Comecei a considerar a possibilidade de estar no limbo entre o dormir e o despertar – quando pequeno fui um sonâmbulo contumaz, e já tinha uma certa experiência no assunto. Olhei em volta uma vez mais e decidi: era fruto da minha imaginação. Meu coração ainda palpitava de ansiedade, e eu podia ouvir cada uma das batidas com uma clareza impressionante. Mas havia algo de estranho. Um eco. Como se minha cabeça estivesse vazia, e cada som que saía do meu corpo tivesse uma segunda voz. Sentei-me na familiar poltrona, de livros e cochilos, para recuperar o fôlego. Havia algo de muito estranho naquela noite. Foi então que vi. Num canto, atrás de uma pilha de cadernos antigos. Vi a mim. Eu mesmo, sentado, encolhido. Caderno na mão, lápis na outra.
Finalmente, entendi. Após anos e anos de procura, finalmente havia me encontrado. Ou melhor, havia me surpreendido. Me surpreendi escrevendo, escondido. Encontrei-me num cantinho escuro da minha própria biblioteca. Não planejei tal encontro. Não procurei tal ofício. Na verdade, fugi. Fugi daquela coisa de escrever. Mas não adiantou. O destino conspirara e não havia para onde ir. Não havia nada que eu pudesse fazer. Simplesmente era assim, e o melhor era aceitar logo e continuar com a vida. Resignar-me.
Escrever eu não escolhi. Escrever me escolheu. Descobri-me, nas penumbras do inconsciente, um escrevinhador. Escritor não digo. Escritor é alguém que vive de escrever. E posso viver de outra coisa, mas quero viver para isso.





Big-Bang

17 06 2004

Era um Elétron igual aos outros. Vivia tranqüilo em sua órbita ao redor do solitário Próton e, exceto por um ou outro Fóton que vinha importuná-lo, nada o incomodava. Mas nada na vida é certo, nem mesmo a morte. Eis que ele se depara, num belo dia, com um Pósitron. O arquétipo da sua cara-metade. Ou melhor, sua antipartícula. E foi como se uma imensa carga de energia o tivesse impulsionado, livre, para fora da rígida órbita nuclear. Seu coração palpitava, suas mãos suavam (sim, elétrons têm mãos, mas elas são muito pequeninas), e seu rosto corava. Imaginar sua vida ao lado de tal beleza natural era um sentimento por demais esmagador – e por demais agradável.
Mas, como todo elétron que freqüentara a escola, sabia que era um amor impossível. Platônico em todas as suas acepções. Um simples toque entre ambas partículas de antimatéria resultaria numa explosão devastadora, que levaria ele e sua amada à destruição. Entre eles, não haveria nunca nós.
Quem ama, no entanto, busca. E, disposto a desafiar o destino, procurou uma forma de resolver seu dilema. Entre seus iguais, ninguém sabia de uma maneira segura de consumar tal união. Avisaram-no, inclusive, sobre os perigos de perseguir tal empreitada. Soube, de ouvir falar, que certa vez, há muitos e muitos e muitos e muitos e muitos bilhões de anos, um caso parecido ocorrera. E que a destruição fora tamanha que um universo inteiro se extinguira e as micro-partículas desse caso de amor primordial se espalharam por todo o Cosmos.
E assim ele entendeu. Procurou, dentro de si, a coragem necessária. Num gesto impetuoso, atirou-se contra sua anti-cara, e encontrou o fim e o início. E deles surgiu uma energia que foi vista por milhões de anos-luz, mas que durou apenas um milésimo de centésimo de segundo. E no instante seguinte não havia mais nada. E depois havia um novo tudo. E isso que hoje chamamos de Universo nada mais é do que o Nós desse amor infinito.





Última

17 05 2004

Passei os últimos anos procurando a próxima. A próxima garota por quem me apaixonar, a próxima a quem beijar, a próxima a dividir minha cama, meus sonhos. Essa busca acabou. Não procuro mais a próxima. Não existem mais primeiras, segundas, vigésimas. Procuro a última. A última mulher a quem me entregarei. E não me importará quantos ou quem ela já teve ao seu lado. Importará apenas que eu serei o último. E últimos seremos os dois.





Flamingos

13 05 2004

-Tchau.

Foi a última palavra que saiu da sua boca. Ela se dirigiu ao caixa pagou a conta e saiu. Eu fiquei ali, parado, embasbacado. Era daquelas mulheres que o melhor é que não falem. Porque ao abrir a boca, caímos de joelhos aos seus pés. Linda e inteligente. Combinação difícil de superar.
Olhei mais uma vez para seu telefone, recém-anotado no meu celular, e imaginei como seriam nossos filhos. Provavelmente morenos de olhos azuis. Mas quem sabe? Podia nascer uma bela loirinha como a mãe.
Enquanto esperava o manobrista trazer o carro, ela fazia cachos, enrolando as longas madeixas com o dedo. Pequenas coisas. É disso que são feitas as vida em casal.
Procurei me conter, voltei para mesa. Meus amigos perguntavam, questionavam sobre a investida. Tinha ficado quase quarenta minutos conversando com ela, e nenhum beijo. Levou um fora, perguntou um deles. Não, encontrei o amor da minha vida. Exibi, orgulhoso, o número marcado em meu telefone. A noite foi perfeita, melhor ir embora antes que estrague, pensei. Levantei-me e, como tinha bebido algumas cervejas, fui ao banheiro antes de pagar a conta. Não conseguia parar de pensar nela. Apertei a descarga e vi, em câmera lenta, close-up, e todos os recursos cinematográficos possíveis, meu celular pular do bolso da jaqueta e mergulhar no redemoinho, afogando meu sonho de uma vida maravilhosa.
Congelei.
Na louça branca, sequer vestígio do meu celular. Não sabia o que fazer. Fiquei paralisado minutos sem conta. Até que despertei do transe e fui, desolado, lavar as mãos. Molhei o rosto. Vi o seu no espelho. Dessa vez, ao lado de outro homem, segurando nossos filhos no colo, passeando com nosso cachorro. Como era possível? Eu tivera a felicidade em minhas mãos, e agora ela se fora com um som horrível. Por sinal, se a felicidade de alguém acaba, esse é o som exato que deve ter: o de uma descarga mal-regulada. Voltei para casa e mal consegui fechar os olhos. Por muito tempo ainda procurei suas feições em cada loira que caminhava na rua, cada carro que parava ao meu lado no farol. Na verdade, procurava também nas morenas e ruivas, em ônibus e metrôs. Mas os anos foram passando e nunca mais a vi.
Eis que fui, certa noite, comprar bebidas e petiscos para alguns amigos que vinham me visitar. O penúltimo solteiro da turma da faculdade já estava casado havia dois anos. Só restava eu. E minha namorada fazia questão de repetir isso a cada chance possível.
Então, estava eu na fila do supermercado, esperando a vez de pagar, quando a vejo passar ante meus olhos. Não havia envelhecido sequer um dia. Se era possível, estava ainda mais bonita. Meu coração parou, e vi uma casa com um belo jardim e uma amoreira. E flamingos. Não me perguntem por que, mas achei que ela era do tipo que gostava de flamingos.
Seus olhos encontraram os meus e eu soube o que precisava fazer. Saí da fila e fui ao seu encontro. Cumprimentei-a e expliquei porque nunca liguei para ela. Desconfiada a princípio, ela acabou aceitando minhas desculpas. Conversamos por um tempo e soube que ela acabara de voltar de viagem. Tinha conhecido a Tailândia e estava solteira. Mais uma vez anotei seu telefone, dessa vez num pedaço de papel.
Terminei minhas compras e fui para casa. No caminho, pensamentos conflitantes poluíam minha cabeça. Entrei no apartamento e todos já estavam à minha espera. Inventei uma justificativa qualquer para o atraso. Desculpei-me e fui ao banheiro do meu quarto. Precisava lavar o rosto. Minha namorada entrou e quis saber por que eu parecia tão assustado. Dei a descarga e olhei para ela. Respirei fundo, e disse:
- Lúcia, meu amor, casa comigo? Você é o amor da minha vida, e eu não consigo imaginar viver sem você ao meu lado.
Enquanto nos beijávamos felizes, aquele número de telefone descia pela privada uma vez mais. Não estava disposto a trocar a mulher da minha vida por flamingos.