Pergunta existencial (1)

28 05 2007

Só é mesmo nosso aniversário se as pessoas comemoram? Sozinho, num buraco escuro, o aniversário parece mais um dia como outro qualquer. E deve demorar muito mais para passar do que no meio de bons amigos.





Pergunta

6 03 2007

De quanto em quanto tempo é preciso postar para manter o blog vivo?





Hoje

19 09 2006

Eu descobri que a vida só tem um sentido.





É preciso voltar a escrever.

12 09 2006

Mas acho que me esqueci como faz.





Metalinguagem

25 02 2005

Dia desses eu estava escrevendo uma história e não foi com pouca surpresa que eu percebi que ela tinha tomado um rumo bem diferente do que eu planejara. Era um daqueles personagens – voluntariosos, como diz uma amiga – que havia tomado conta e fazia birra para a história ser do jeito dele. E aí, fui obrigado a contar uma história que não queria. Por que será que esses personagens são tão folgados? É tudo do jeito deles, isso quando querem trabalhar. Raramente eu encontro um que peça pra eu contar uma história. Pelo menos ultimamente. E eu vou ficando aqui, sem bem saber o que escrever. Vai ver que todos os personagens são um pouco assim. O ruim mesmo é quando eles não estão a fim de fazer nada, querem só sentar no sofá e ver TV, e acaba surgindo uma não-história. Paciência. Personagens são assim mesmo: querem arrancar a caneta da nossa mão e escrever o próprio destino. Vá lá. Nós, os homens, também queremos. Queremos escolher tudo que nos acontece, queremos ser felizes e não ser infelizes. Mas assim como no conto, precisamos dos altos e baixos na nossa vida para não ficar tedioso. Vai ver que é por isso que eu sempre preferi o Batman ao Superman. O primeiro é humano e tem milhares de defeitos e qualidades. O segundo é imbatível. Convenhamos: todo aquele lance de kriptonita não tem graça nenhuma. Então, quando os personagens querem escrever a própria história, eu só vou acompanhando, fingindo que não percebi o que eles estão fazendo. Deixo eles terem suas idéias de grandeza, para então, Zap!, tomar a pena de volta e mostrar quem manda aqui sou eu. É por isso que alguns dos meus personagens são meio atormentados. Juro, tem vezes que fico com pena deles. Vez ou outra até deixo eles contarem o que aconteceu, não me meto e só assisto. É nesses casos que nem sei bem o que aconteceu. Só o que me disseram. Mas no final, no final mesmo, eu chego à conclusão de que esse tipo de personagem precisa mesmo é apanhar, pra aprender que comigo não tem história. E nem vem com gracinha.





Bad, bad server. No donut for you

15 07 2004

Sinto sua presença. Constante. Crescendo a cada minuto. Seus tentáculos cada vez mais longos. Furtivos. Uma ameaça constante. Poderosa.Tomando o controle sem que se note. Uma luta silenciosa, agridoce. Não há escapatória: em breve, serei mais um zumbi.

Maldito Orkut.





Serendipity

23 06 2004

Já passara das duas da manhã, e eu lá, sem conseguir dormir. Tinha ido cedo para a cama naquele dia, mas acordara pouco depois da meia-noite. Desde então, só rolava na cama, enrolando-me nos lençóis da maneira que só os insones conhecem. Foi quando ouvi um som vindo lá de baixo. Sempre tive medo desses barulhos noturnos. São os móveis encolhendo com o frio, costumava dizer minha mãe. Permaneci ali, deitado, de olhos bem abertos, esperando que algo acontecesse. Nada. Silêncio. Tenso, esperei alguns minutos mais. Bons e longos minutos. Acabei por criar coragem – sabia que não pegaria no sono até descobrir a origem do barulho. Saí da cama e, sorrateiramente, fui andando na direção das escadas. Quando já estava nos últimos degraus, percebi um tênue facho de luz saindo por baixo da porta da biblioteca. Pé ante pé, aproximei-me da porta. Mas, como sempre acontece quando queremos ser silenciosos, meu joelho deu um estalo surdo, daqueles que reverberam por todo o ambiente. E a luz se apagou.
Abri a porta com todo o cuidado. Já imaginava um ladrão, e tentava encontrar algo para me defender. Entrei. Liguei o interruptor, mas não havia nada lá. Ou melhor, ninguém. Comecei a considerar a possibilidade de estar no limbo entre o dormir e o despertar – quando pequeno fui um sonâmbulo contumaz, e já tinha uma certa experiência no assunto. Olhei em volta uma vez mais e decidi: era fruto da minha imaginação. Meu coração ainda palpitava de ansiedade, e eu podia ouvir cada uma das batidas com uma clareza impressionante. Mas havia algo de estranho. Um eco. Como se minha cabeça estivesse vazia, e cada som que saía do meu corpo tivesse uma segunda voz. Sentei-me na familiar poltrona, de livros e cochilos, para recuperar o fôlego. Havia algo de muito estranho naquela noite. Foi então que vi. Num canto, atrás de uma pilha de cadernos antigos. Vi a mim. Eu mesmo, sentado, encolhido. Caderno na mão, lápis na outra.
Finalmente, entendi. Após anos e anos de procura, finalmente havia me encontrado. Ou melhor, havia me surpreendido. Me surpreendi escrevendo, escondido. Encontrei-me num cantinho escuro da minha própria biblioteca. Não planejei tal encontro. Não procurei tal ofício. Na verdade, fugi. Fugi daquela coisa de escrever. Mas não adiantou. O destino conspirara e não havia para onde ir. Não havia nada que eu pudesse fazer. Simplesmente era assim, e o melhor era aceitar logo e continuar com a vida. Resignar-me.
Escrever eu não escolhi. Escrever me escolheu. Descobri-me, nas penumbras do inconsciente, um escrevinhador. Escritor não digo. Escritor é alguém que vive de escrever. E posso viver de outra coisa, mas quero viver para isso.





Sobre beijos e livros

14 06 2004

Não dá para reler um livro assim como é impossível beijar pela primeira vez novamente. Quando que você acaba a leitura, o livro também termina. Um livro, por maior que ele seja, tem a duração de uma única leitura. E nada mais. Depois disso, é como ver fotos de uma viagem: a gente sente uma nostalgia, mas não a mesma emoção. Claro, não digo que você não vá descobrir novas maravilhas. Quanto melhor o livro, maior a chance de encontrar coisas diferentes e surpreendentes. Assim como beijar alguém mais de uma vez pode trazer emoções novas, sentimentos diversos. A técnica se apura, o relacionamento se estreita e você acaba arriscando mais, experimentando mais. Mas a verdade é que, por mais que tente, você nunca sentirá aquilo novamente. Como dizia a viciada em heroína de Invasões Bárbaras, preste atenção na primeira vez, pois é a ela que tentamos sempre retornar. Mas nunca voltaremos.
Talvez seja um desdobramento das idéias de Heráclito – o de Éfeso. Tudo muda. Não dá para atravessar o mesmo livro duas vezes. A gente muda, e o livro ainda mais.
Livros, embora muitos acreditem que sejam imutáveis, não o são. Livros não são estáticos, e estão sempre mudando. Se você for a uma biblioteca grande o suficiente, e fizer bastante silêncio, ouvirá as palavras se mexendo, as letras escalando parágrafos e mudando de posição. Pequenas e sutis trocas de sílabas. Coisa que passa despercebida pela maioria das pessoas. Mas elas sempre mudam. Por isso, as bibliotecárias sempre pedem que fiquemos quietos lá dentro. Não é para não atrapalhar quem quer que esteja lendo. É para não incomodar os livros. Eles precisam de calma e silêncio para continuar seu trabalho interminável. Com um pouco de sorte, dá até para ver, mesmo que de soslaio, uma letra se mexendo furtivamente, procurando um novo lugar para ficar. Não digo que seja fácil. A maioria delas faz isso há séculos e está mais do que treinada. Mas é possível, com uma certa dose de paciência e dedicação. Na verdade, até mesmo a Bíblia muda.





Sempre preferi uma única rosa a um buquê repleto delas

9 06 2004

Quando recebe um buquê de rosas vermelhas, você vê o resultado de todas elas juntas, não olha para a flor, mas para o conjunto delas. Vê um aglomerado de pétalas, centenas delas. Mas quando você ganha uma rosa, uma única e solitária flor, você vê a beleza singular que ela possui. Percebe os detalhes, odores. Vê cada pétala como se fosse única e exclusiva. Aquela flor nasceu para chegar às suas mãos. Aquele botão é seu e de mais ninguém. É como se ela concentrasse todo o carinho do ato, todo o amor em uma flor perfeita. Ninguém perde tempo escolhendo cada uma das flores de um buquê. Mas se você for presentear alguém com uma rosa, ficará um tempão escolhendo a mais bela e perfeita delas. É isso, sempre preferi uma rosa a um buquê.





Ortografias

9 06 2004

Quem não tem na cabeça uma palavra que, sempre que pronunciada, parece estar errada? Aquela impressão de que a maneira certa é Rúbrica, Substântivo, Célebro, Losângulo, adevogado. Algumas palavras simplesmente deveriam ser escritas de outra maneira. Não sei bem o motivo disso, mas todos temos um sentimento especial por algumas palavras, uma estranheza, como se alguém tivesse se enganado na hora de distribuir as letras e sílabas tônicas. Talvez resida aí a razão pela qual tanta gente escreve quizer ao invés de quiser. Antes do advento do corretor automático do Word, que também não é lá muito confiável, devia ser tortura chinesa para os professores ler trabalhos dos alunos. Assim como é ler alguns blogs que estão por aí, à deriva na internet.
Mas ortografia às vezes atrapalha, incomoda, não nos deixa dizer as coisas com a devida sonoridade. Não permite que enchamos a boca com a palavra e façamos um gargarejo, antes de cuspí-la na conversa. Hmmm, essa palavra tem um gosto amadeirado, com um toque de maçã. É suave, porém safada.

E quem nunca sentiu um prazer todo especial em dizer rúbrica? Uma delícia. Substântivo! E tem também aquelas palavras cativas, que se pudéssemos incluiríamos em todas as conversas. Intrínseco. Falácia. E em outras línguas, conundrum (essa é minha preferida absoluta em inglês), popular (com sotaque estadunidense). E expressões. A mi me encanta. Poesia pura.
Rubem Alves disse, na Folha de domingo, que toda leitura tem seu ritmo. E eu sempre senti isso. Tem coisas que simplesmente devem ser ditas de uma certa maneira, ou perdem sentido. Seja pela aliteração, pela pontuação, ler bem significa captar o ritmo certo. Mas as palavras também tem música própria, e quando prestamos atenção, podemos encontrar belíssimas sinfonias. É como se cada letra fosse uma nota; cada sílaba um acorde. Sendo assim, podemos ter más combinações de acorde e tempos errados. Essa característica das palavras explica ao mesmo tempo más construções frasais e as palavras que intuímos estarem escritas de forma equivocada. Elas devem estar em outro tipo de escala musical. Talvez aquela oriental, baseada não em 7, mas em 12 notas.