Para comer de colher

25 05 2004

Acho que os visitantes merecem uma explicação minha. Afinal, sou indicado no Blogs of Note e desapareço… É o seguinte: passei a última semana fazendo uma lavagem cerebral. Senti que estava precisando, sabe? Tava cheio de idéias antigas, memória fora de lugar… É mais ou menos como fazer a desfragmentação de disco, só que mais chato (não tem aqueles quadradinhos coloridos pulando de um lugar pro outro). E vocês não têm idéia de como aquelas dobrinhas encefálicas acumulam sujeira…
Enfim, faz um tempo que eu quero dar algum sentido à seção Livros, então resolvi falar um pouco sobre alguns dos que estão aí. Mesmo porque vou substituí-los em breve. Vamos lá:
Dom Casmurro. Só existe um comentário pertinente: Machado de Assis. Tá, vou elaborar… Afinal, e vamos para um lugar comum, Capitu traiu ou não traiu? Sinceramente eu não tive dúvidas de que sim. Mas talvez não. Não há provas. O mais incrível é a capacidade do Machado de plantar a sementinha na nossa cabeça durante o livro, sem que nem percebamos. Nós mesmos estamos acusando quando menos esperamos. Mas não há prova da traição. Não há corpo nem arma do crime. Então não há crime. Putz, até eu fiquei confuso.
O Ócio Criativo. Podem até dizer que é utopia. Mas acho que é no mínimo um sonho muito bom, algo pelo que lutar. Claro, modificar a sociedade a esse ponto é muito complicado, mas o exemplo dos trabalhadores que comem banana, é muito sugestivo. Afinal, em que tipo de sociedade vivemos ainda? E ócio criativo não tem nada a ver com ficar na cama dormindo. Tem a ver com juntar a diversão, o trabalho e o aprendizado numa coisa só. Produzir sempre, e se divertir sempre. Show de bola.

E, atendendo ao pedido de uma amiga, um dos primeiros livros que me marcou. Não digo o primeiro, porque faz muito tempo, mas um dos:

Cem Anos de Solidão. Gabriel Garcia Márquez marcou minha infância com sua literatura fantástica. A imagem do Velho Buendía no quartinho dos fundos, fazendo alquimia. O primeiro encontro do povo de Macondo com o gelo trazido pelos ciganos. É incrível a forma como esse prêmio Nobel descreve a vida de uma família numa cidadezinha qualquer, mas de uma forma brilhante, cheia de fantasia, mas impregnada de realidade. Lembro-me bem de ficar pasmo ao ver que todos os filhos tinham o mesmo nome, e as mesmas características. Exceto os gêmeos. Mas eles devem ter sido trocados quando pequenos. Dá uma vontade de passear por Macondo novamente…





A certeza da dúvida

22 04 2004

Se existe algo com que podemos contar durante toda a nossa vida é a dúvida. Percebi, nos últimos tempos, o quanto a dúvida nos mostra a verdade sobre o que sentimos ou queremos. Entendo agora que, muitas vezes, algo nos é tão importante, mas ao mesmo tempo tão modificador e inevitável, que criamos barreiras, que procuramos motivos para não aceitar essa coisa. Por isso mesmo, acabamos não tendo certeza. Não sabemos se queremos ou não. Sabe de uma coisa? É exatamente ao contrário do que pregam: se você não quisesse, saberia. Quantas vezes você não quis uma coisa com uma certeza inacreditável? E quantas vezes você teve essa certeza sobre algo que você queria? Quando prestou vestibular, tinha certeza da escolha? Como poderia? Não conhecia o suficiente a escolha que estava tomando. A verdade é que quando algo é grande demais, a dúvida vem. E quantas vezes você estava em dúvida sobre alguma coisa e, depois que criou coragem e fez, percebeu que tinha feito a coisa certa?
Acho que todo mundo tem medo de casar. Casar significa se comprometer com algo, alguém, e aceitar que isso deve ser para sempre. E para sempre é tempo demais. Acho que o grande problema é exatamente esse. Se as pessoas aceitassem que querem alguma coisa, ao invés de ficar pensando até que ponto querem e por quanto tempo quererão, a vida seria muito mais fácil. As coisas que realmente valem a pena nessa vida também trazem milhares de dúvidas. É como saltar de Bungee Jump. Você terá dúvida até o último segundo. Na verdade, o momento de maior dúvida e hesitação será exatamente o momento do salto, aquele ponto em que você já está preso à corda, parado à beira do abismo. E encarando o vazio. Será que a corda está bem presa? Será que eu vou sobreviver? Difícil de dizer antes do fim. São os riscos das grandes decisões. Mas pense bem: você já está aqui e as chances de algo dar errado são pequenas. O benefício, o prazer, enormes. Vai perder a chance? Se realmente não quisesse fazê-lo, você dificilmente teria chegado a esse ponto.
Então, quando estiver numa dúvida existencial incrível, pense bem: se você tivesse certeza, ela seria de que você não quer fazer isso. A gente só tem certeza de que quer algo depois que já fez. Ou depois que perdeu essa chance – e aí já é tarde. Eu já me arrependi demais por não ter feito algo devido por não estar certo de querer. E também já fui muito feliz, nas vezes em que aceitei a dúvida como parte da certeza. Aprendi minha lição. Em dúvida, salte.





Escreveu. Não leu. Não escreveu.

19 04 2004

Lidando dia a dia com textos vindos das mais diversas fontes, incluída aí a internet, comecei a perceber algo que deve até ser bem claro para muitos. As pessoas não sabem escrever. Ou melhor, as pessoas sabem escrever. Elas não sabem é ler.
Digo isso porque acredito que a capacidade de alguém escrever está intimamente ligada a quanto ela lê ou o que ela lê. Se ela só folheia livros de auto-ajuda, dificilmente vai conseguir fugir à verborragia demagógica típica dessas publicações. Ou seja, sabe escrever, conhece as letras e muitas palavras, mas não tem referências para conectá-las da melhor forma. Em oposição, é altamente improvável que alguém que leia um volume respeitável e constante de livros não consiga se expressar bem por meio da palavra escrita, mesmo que não se considere criativo. Criatividade nem está em pauta aqui, embora eu acredite que ela tem a ver com a quantidade de estímulos que recebemos – quanto mais lemos, mais informação temos, maior a possibilidade de associações novas. Falo de linguagem mesmo. De bom português. Na hora de dizer o que pensa, muita gente acaba se afogando em frases desconexas e vírgulas fora de lugar. Pior, costumam utilizar-se de jargão técnico para camuflar a falta de conteúdo. Quer um exemplo dessa linguagem? Resultado: a nível des, gerundismos e afins.
E não, isso não é uma daquelas apologias aos Clássicos. Para dizer a verdade, e que nenhum professor de literatura me escute, os Clássicos muitas vezes são chatos. Terrível e irremediavelmente chatos. E, nas palavras de um amigo goiano, é bobagem perder nosso tempo com livros que não gostamos. Livros devem ser um prazer além de serem fonte de conhecimento e cultura. Lê-los pela estrutura sofisticada ou pela linguagem rebuscada? A vida é curta, os livros muitos.
As pessoas têm preguiça de ler. Gostam de tudo mastigadinho. Ou não prestam muita atenção ao que estão lendo. Ler também é interpretar, entender, imaginar, mergulhar nessa outra realidade. Ver os rostos, as cidades, as histórias, como num filme. A diferença é que o diretor de fotografia é você.
A questão não é nem escrever profissionalmente. Não estou pensando em editoriais, matérias ou livros. Mas na escrita diária. Naquele recado pendurado na geladeira que a gente deixa para o pai ou o bilhete apaixonado que mandamos para a namorada. Naquele e-mail que enviamos para os amigos. A redação clara e concisa, como já diziam nossos professores, tornam a leitura e a comunicação da mensagem muito mais fácil. Vírgulas fora de lugar, texto sem pontuação, grafia incorreta. Tudo isso, no mínimo, quebra o ritmo da leitura. No máximo, torna a mensagem incompreensível. São aqueles textos que exigem duas ou três releituras para uma compreensão satisfatória.
Volto ao ponto inicial: as pessoas sabem escrever, não sabem ler. Escrevem o que lêem, e quando não lêem não sabem como se expressar.
E muitos tem preguiça também de pontuar e escrever direito. Acabam escrevendo textos sem muito sentido. Tenho uma birra muito grande com quem acha que escrever é só ir colocando palavras no papel, sem se preocupar se elas estão corretas, se estão bem concatenadas. Jogando vírgulas para o alto e que caiam onde lhes convier. Birra mesmo. Não é purismo. A língua deve servir a nós, e não o contrário. Mas sou partidário da idéia de que precisamos conhecer as regras antes de quebrá-las. É preciso saber quando quebrá-las, com que intuito.
A impressão que tenho é, que para muita gente – e aqui já falo de quem trabalha com a palavra escrita – português correto é pedantismo. Só que não é bem assim. Um texto claro e sem erros é muito mais fácil de ler. Sem palavrismos. Não faz muito sentido que alguém que vive da escrita, seja jornalista, publicitário, ou que use o português constantemente, como advogados e outros escritores casuais, não dão o devido respeito à sua ferramenta de trabalho. Errar, todos erramos. Mas daí a insistir que faz assim de propósito, ou que não é importante escrever tão corretamente. Enfim, desdenhar do português. É o mesmo que um mecânico que só usa o martelo para consertar tudo. Nunca se usa um martelo quando se tenta consertar um carro. É, o problema é que tem muito texto martelado por aí.
Divagações e desabafos à parte, uma boa forma de aprender português de uma maneira fácil e divertida é ler. Sempre. Pode ser até pote de margarina e embalagem de sucrilhos. Ler bulas de remédios e placas de trânsito. Ler livros bons e ruins. J.K. Rowling e Paulo Coelho. José Saramago e Machado de Assis. Ler a ponto de querer fugir para um mundo sem palavras – isso acontece. Mas nem assim desistir, porque isso passa e a vontade retorna.
Leia de modo que você não precise nem mesmo pensar nas palavras. Deixe-as fluir, como um músico faz com as notas. Isso! Leia como um músico tocando um instrumento e não como um matemático fazendo cálculos. Leia sem ver as palavras, pois muitas vezes elas atrapalham. E compreenda o que leu. Vez ou outra, leia um livro que você não consegue entender, sequer terminar o primeiro capítulo. Tente, tente, tente entendê-lo. Interprete-o. Mas se as coisas complicarem, coloque-o de lado. Não tem nada de errado nisso. Agora não me lembro quem disse que só conseguiu apreciar a Divina Comédia na terceira ou quarta leitura – tenho a impressão que foi Woody Allen. Mas depois de um tempo tente ler novamente esse livro. Tenho a impressão de que os livros têm uma dinâmica muito especial: nos encontram somente na hora certa, nunca antes. Foi assim que eu vim a ler As Brumas de Avalon. Tentei duas vezes e desisti. Não consegui terminar nem o primeiro capítulo. Depois de uns dois anos, comecei novamente. E devorei todos os livros da série. E, para ser sincero, odiei a Divina Comédia.





Buenos Aires

7 04 2004

O grande problema de Buenos Aires é que todo mundo já foi.
Sendo assim, se você ainda não foi, vá. Correndo. E não conte pra ninguém. A forma correta de se fazer isso é esperar até que alguém, inadvertidamente, tente comentar como o táxi é barato – você não precisa nem tirar o carro da garagem – ou que ficou deslumbrado com o
Puerto Madero/Show de tango. Aí sim. Você deve então retrucar “é verdade, você foi na loja de roupas/couro/fotografia/antiguidades/perfumes que fica na Calle Florida? É muito barato! E comeu empanadas/parrillada no Palácio das Papas Fritas/Café Tortoni?”.
Pronto. Agora ninguém desconfia que as suas malas ainda estão no pé da escada, esperando serem desfeitas.