Lidando dia a dia com textos vindos das mais diversas fontes, incluída aí a internet, comecei a perceber algo que deve até ser bem claro para muitos. As pessoas não sabem escrever. Ou melhor, as pessoas sabem escrever. Elas não sabem é ler.
Digo isso porque acredito que a capacidade de alguém escrever está intimamente ligada a quanto ela lê ou o que ela lê. Se ela só folheia livros de auto-ajuda, dificilmente vai conseguir fugir à verborragia demagógica típica dessas publicações. Ou seja, sabe escrever, conhece as letras e muitas palavras, mas não tem referências para conectá-las da melhor forma. Em oposição, é altamente improvável que alguém que leia um volume respeitável e constante de livros não consiga se expressar bem por meio da palavra escrita, mesmo que não se considere criativo. Criatividade nem está em pauta aqui, embora eu acredite que ela tem a ver com a quantidade de estímulos que recebemos – quanto mais lemos, mais informação temos, maior a possibilidade de associações novas. Falo de linguagem mesmo. De bom português. Na hora de dizer o que pensa, muita gente acaba se afogando em frases desconexas e vírgulas fora de lugar. Pior, costumam utilizar-se de jargão técnico para camuflar a falta de conteúdo. Quer um exemplo dessa linguagem? Resultado: a nível des, gerundismos e afins.
E não, isso não é uma daquelas apologias aos Clássicos. Para dizer a verdade, e que nenhum professor de literatura me escute, os Clássicos muitas vezes são chatos. Terrível e irremediavelmente chatos. E, nas palavras de um amigo goiano, é bobagem perder nosso tempo com livros que não gostamos. Livros devem ser um prazer além de serem fonte de conhecimento e cultura. Lê-los pela estrutura sofisticada ou pela linguagem rebuscada? A vida é curta, os livros muitos.
As pessoas têm preguiça de ler. Gostam de tudo mastigadinho. Ou não prestam muita atenção ao que estão lendo. Ler também é interpretar, entender, imaginar, mergulhar nessa outra realidade. Ver os rostos, as cidades, as histórias, como num filme. A diferença é que o diretor de fotografia é você.
A questão não é nem escrever profissionalmente. Não estou pensando em editoriais, matérias ou livros. Mas na escrita diária. Naquele recado pendurado na geladeira que a gente deixa para o pai ou o bilhete apaixonado que mandamos para a namorada. Naquele e-mail que enviamos para os amigos. A redação clara e concisa, como já diziam nossos professores, tornam a leitura e a comunicação da mensagem muito mais fácil. Vírgulas fora de lugar, texto sem pontuação, grafia incorreta. Tudo isso, no mínimo, quebra o ritmo da leitura. No máximo, torna a mensagem incompreensível. São aqueles textos que exigem duas ou três releituras para uma compreensão satisfatória.
Volto ao ponto inicial: as pessoas sabem escrever, não sabem ler. Escrevem o que lêem, e quando não lêem não sabem como se expressar.
E muitos tem preguiça também de pontuar e escrever direito. Acabam escrevendo textos sem muito sentido. Tenho uma birra muito grande com quem acha que escrever é só ir colocando palavras no papel, sem se preocupar se elas estão corretas, se estão bem concatenadas. Jogando vírgulas para o alto e que caiam onde lhes convier. Birra mesmo. Não é purismo. A língua deve servir a nós, e não o contrário. Mas sou partidário da idéia de que precisamos conhecer as regras antes de quebrá-las. É preciso saber quando quebrá-las, com que intuito.
A impressão que tenho é, que para muita gente – e aqui já falo de quem trabalha com a palavra escrita – português correto é pedantismo. Só que não é bem assim. Um texto claro e sem erros é muito mais fácil de ler. Sem palavrismos. Não faz muito sentido que alguém que vive da escrita, seja jornalista, publicitário, ou que use o português constantemente, como advogados e outros escritores casuais, não dão o devido respeito à sua ferramenta de trabalho. Errar, todos erramos. Mas daí a insistir que faz assim de propósito, ou que não é importante escrever tão corretamente. Enfim, desdenhar do português. É o mesmo que um mecânico que só usa o martelo para consertar tudo. Nunca se usa um martelo quando se tenta consertar um carro. É, o problema é que tem muito texto martelado por aí.
Divagações e desabafos à parte, uma boa forma de aprender português de uma maneira fácil e divertida é ler. Sempre. Pode ser até pote de margarina e embalagem de sucrilhos. Ler bulas de remédios e placas de trânsito. Ler livros bons e ruins. J.K. Rowling e Paulo Coelho. José Saramago e Machado de Assis. Ler a ponto de querer fugir para um mundo sem palavras – isso acontece. Mas nem assim desistir, porque isso passa e a vontade retorna.
Leia de modo que você não precise nem mesmo pensar nas palavras. Deixe-as fluir, como um músico faz com as notas. Isso! Leia como um músico tocando um instrumento e não como um matemático fazendo cálculos. Leia sem ver as palavras, pois muitas vezes elas atrapalham. E compreenda o que leu. Vez ou outra, leia um livro que você não consegue entender, sequer terminar o primeiro capítulo. Tente, tente, tente entendê-lo. Interprete-o. Mas se as coisas complicarem, coloque-o de lado. Não tem nada de errado nisso. Agora não me lembro quem disse que só conseguiu apreciar a Divina Comédia na terceira ou quarta leitura – tenho a impressão que foi Woody Allen. Mas depois de um tempo tente ler novamente esse livro. Tenho a impressão de que os livros têm uma dinâmica muito especial: nos encontram somente na hora certa, nunca antes. Foi assim que eu vim a ler As Brumas de Avalon. Tentei duas vezes e desisti. Não consegui terminar nem o primeiro capítulo. Depois de uns dois anos, comecei novamente. E devorei todos os livros da série. E, para ser sincero, odiei a Divina Comédia.