Já passara das duas da manhã, e eu lá, sem conseguir dormir. Tinha ido cedo para a cama naquele dia, mas acordara pouco depois da meia-noite. Desde então, só rolava na cama, enrolando-me nos lençóis da maneira que só os insones conhecem. Foi quando ouvi um som vindo lá de baixo. Sempre tive medo desses barulhos noturnos. São os móveis encolhendo com o frio, costumava dizer minha mãe. Permaneci ali, deitado, de olhos bem abertos, esperando que algo acontecesse. Nada. Silêncio. Tenso, esperei alguns minutos mais. Bons e longos minutos. Acabei por criar coragem – sabia que não pegaria no sono até descobrir a origem do barulho. Saí da cama e, sorrateiramente, fui andando na direção das escadas. Quando já estava nos últimos degraus, percebi um tênue facho de luz saindo por baixo da porta da biblioteca. Pé ante pé, aproximei-me da porta. Mas, como sempre acontece quando queremos ser silenciosos, meu joelho deu um estalo surdo, daqueles que reverberam por todo o ambiente. E a luz se apagou.
Abri a porta com todo o cuidado. Já imaginava um ladrão, e tentava encontrar algo para me defender. Entrei. Liguei o interruptor, mas não havia nada lá. Ou melhor, ninguém. Comecei a considerar a possibilidade de estar no limbo entre o dormir e o despertar – quando pequeno fui um sonâmbulo contumaz, e já tinha uma certa experiência no assunto. Olhei em volta uma vez mais e decidi: era fruto da minha imaginação. Meu coração ainda palpitava de ansiedade, e eu podia ouvir cada uma das batidas com uma clareza impressionante. Mas havia algo de estranho. Um eco. Como se minha cabeça estivesse vazia, e cada som que saía do meu corpo tivesse uma segunda voz. Sentei-me na familiar poltrona, de livros e cochilos, para recuperar o fôlego. Havia algo de muito estranho naquela noite. Foi então que vi. Num canto, atrás de uma pilha de cadernos antigos. Vi a mim. Eu mesmo, sentado, encolhido. Caderno na mão, lápis na outra.
Finalmente, entendi. Após anos e anos de procura, finalmente havia me encontrado. Ou melhor, havia me surpreendido. Me surpreendi escrevendo, escondido. Encontrei-me num cantinho escuro da minha própria biblioteca. Não planejei tal encontro. Não procurei tal ofício. Na verdade, fugi. Fugi daquela coisa de escrever. Mas não adiantou. O destino conspirara e não havia para onde ir. Não havia nada que eu pudesse fazer. Simplesmente era assim, e o melhor era aceitar logo e continuar com a vida. Resignar-me.
Escrever eu não escolhi. Escrever me escolheu. Descobri-me, nas penumbras do inconsciente, um escrevinhador. Escritor não digo. Escritor é alguém que vive de escrever. E posso viver de outra coisa, mas quero viver para isso.
Serendipity
23 06 2004Comentários : 8 Comentários »
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Sempre preferi uma única rosa a um buquê repleto delas
9 06 2004Quando recebe um buquê de rosas vermelhas, você vê o resultado de todas elas juntas, não olha para a flor, mas para o conjunto delas. Vê um aglomerado de pétalas, centenas delas. Mas quando você ganha uma rosa, uma única e solitária flor, você vê a beleza singular que ela possui. Percebe os detalhes, odores. Vê cada pétala como se fosse única e exclusiva. Aquela flor nasceu para chegar às suas mãos. Aquele botão é seu e de mais ninguém. É como se ela concentrasse todo o carinho do ato, todo o amor em uma flor perfeita. Ninguém perde tempo escolhendo cada uma das flores de um buquê. Mas se você for presentear alguém com uma rosa, ficará um tempão escolhendo a mais bela e perfeita delas. É isso, sempre preferi uma rosa a um buquê.
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Ortografias
9 06 2004Quem não tem na cabeça uma palavra que, sempre que pronunciada, parece estar errada? Aquela impressão de que a maneira certa é Rúbrica, Substântivo, Célebro, Losângulo, adevogado. Algumas palavras simplesmente deveriam ser escritas de outra maneira. Não sei bem o motivo disso, mas todos temos um sentimento especial por algumas palavras, uma estranheza, como se alguém tivesse se enganado na hora de distribuir as letras e sílabas tônicas. Talvez resida aí a razão pela qual tanta gente escreve quizer ao invés de quiser. Antes do advento do corretor automático do Word, que também não é lá muito confiável, devia ser tortura chinesa para os professores ler trabalhos dos alunos. Assim como é ler alguns blogs que estão por aí, à deriva na internet.
Mas ortografia às vezes atrapalha, incomoda, não nos deixa dizer as coisas com a devida sonoridade. Não permite que enchamos a boca com a palavra e façamos um gargarejo, antes de cuspí-la na conversa. Hmmm, essa palavra tem um gosto amadeirado, com um toque de maçã. É suave, porém safada.
E quem nunca sentiu um prazer todo especial em dizer rúbrica? Uma delícia. Substântivo! E tem também aquelas palavras cativas, que se pudéssemos incluiríamos em todas as conversas. Intrínseco. Falácia. E em outras línguas, conundrum (essa é minha preferida absoluta em inglês), popular (com sotaque estadunidense). E expressões. A mi me encanta. Poesia pura.
Rubem Alves disse, na Folha de domingo, que toda leitura tem seu ritmo. E eu sempre senti isso. Tem coisas que simplesmente devem ser ditas de uma certa maneira, ou perdem sentido. Seja pela aliteração, pela pontuação, ler bem significa captar o ritmo certo. Mas as palavras também tem música própria, e quando prestamos atenção, podemos encontrar belíssimas sinfonias. É como se cada letra fosse uma nota; cada sílaba um acorde. Sendo assim, podemos ter más combinações de acorde e tempos errados. Essa característica das palavras explica ao mesmo tempo más construções frasais e as palavras que intuímos estarem escritas de forma equivocada. Elas devem estar em outro tipo de escala musical. Talvez aquela oriental, baseada não em 7, mas em 12 notas.
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Visitando Macondo
7 06 2004Tem uma coisa que sempre me incomodou: não dá pra ler todos os livros, assistir a todos os filmes, visitar todos os lugares do mundo. Sempre me senti meio frustrado com isso. Como escrevi anteriormente: “A vida é curta, os livros muitos”. Essa é uma preocupação recorrente, e sempre que vou pegar um novo livro para ler, imagino se valerá a pena. Penso se estou pronto para ele, ele para mim. Imagino se não poderia estar lendo outra coisa mais interessante. Quando começamos a ler um livro, nunca sabemos se pode ser uma viagem perdida. Então, na eterna dúvida do que ler em seguida reside outra, ainda mais problemática: devemos reler um bom livro?
Existem livros que nos marcam muito. Ainda assim, o tempo passa, e detalhes importantes se perdem nos recônditos da nossa memória. Ou talvez sintamos saudades daquele mundo que, certa vez, visitamos. Pare e pense por um minuto num livro que marcou você. O que foi que marcou? Os milucos do Dia do Curinga? Os ciganos de Macondo? Os canhões floridos do O Menino do Dedo Verde? Ou a dedicatória de Memórias Póstumas de Brás Cubas? Pois é. Dá uma saudade… E nessas horas o dilema é terrível. Por um lado, já sabemos que o livro será bom. Por outro, é tempo precioso, em que poderíamos estar conhecendo um novo mundo. Reler ou não reler? Ah, como eu gostaria visitar Macondo, acenar para os Buendía. Sentar no barco, ao lado de Deus, Jesus e o Diabo para ouvir a conversa imaginada por Saramago. Enlouquecer com Tyler Durdeen nos porões do Clube da Luta.
Não tenho a certeza, mas a impressão de que velhos amigos merecem uma visita ocasional.
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O prazer nosso de cada dia
10 05 2004Amor, felicidade, sofrimento. Tudo isso tem sido tema freqüente em minhas conversas, em meus pensamentos. E uma das conclusões às quais cheguei é que o dia em que crescemos é o dia em que deixamos de ser hedonistas.
Somos todos hedonistas quando nascemos. O hedonismo guia nossa existência, seja quando estamos à procura de sexo, comida, paixão – amorosa ou não – ou qualquer outro prazer dito da carne. Esse é um mecanismo biológico que nos mantém vivos. Li que se não tivéssemos prazer em comer ou nos reproduzir poderíamos nos esquecer disso, e nossa espécie seria extinta rapidamente. Mas o dia em que crescemos, e mais, em que descobrimos a felicidade verdadeira, é o dia em que paramos de deixar nosso lado hedonista nos controlar. O dia em que reconhecemos que temos anseios animais e percebemos que podemos perder coisas muito valiosas ao dar vazão a eles. Sem rodeios: o dia em que aprendemos a não ser tão egoístas e a nos controlar para não machucar a quem amamos. O desejo faz parte do homem, e quanto a isso não podemos fazer nada. Mas o homem é mais do que um animal e pode controlar seus desejos. Superego é a palavra-chave. O problema é que também não dá pra ficar simplesmente reprimindo esses desejos. Se for assim, uma hora não resistiremos. Fico, então, imaginando a melhor saída para esse dilema. Reconhecer que somos humanos, demasiado humanos, como diria Nietzsche, é um grande passo. Então, quando encontramo-nos, literalmente, face a face com a tentação, o hedonismo clamando a posse de nossas ações, como agir? Aceitar que podemos querer algo que não devemos. Entender que tudo podemos, mas nem tudo devemos. Controlar esse desejo e afastar-se.
Fugir! Não há nada de errado em escapar fisicamente a um desejo. O problema da tentação é que cedo ou tarde ela nos convence. Como disse Oscar Wilde, resisto a tudo, menos à tentação. Mas se nos rendermos à ela, acabaremos atormentados por nossa consciência, pela culpa, e ainda correremos o risco de perder aquilo que amamos. E o dia seguinte? A ressaca moral de ter feito algo realmente errado?
O ideal seria nos armarmos para uma situação dessas. Porque sempre sentiremos desejo, e isso não tem nada a ver com a pessoa que gostamos, não é falta de amor, de tesão, de paixão. É simplesmente uma condição humana. Então deveríamos nos preparar psicológicamente para esses momentos. Controlemos melhor nossas ações, cerquemo-nos de amigos que querem nosso bem, que não ficarão nos colocando em situações difíceis e que, mais que isso, nos aconselharão a fazer o certo. Amigos que nem sempre irão dizer o que queremos ouvir. Afinal, como eu disse, mais hora, menos hora, nos convencemos a ceder. E se chegarmos ao ponto do “Melhor não…”, talvez tenhamos ido longe demais. E, nessa hora, um amigo pode fazer toda a diferença. Um amigo que nos faça refletir, pode impedir que nos precipitemos no erro. Assim como um amigo que não vê nada de errado pode nos dar o empurrãozinho de que precisamos para fazer algo de que vamos nos arrepender.
Mas existe outra questão. Não podemos simplesmente dizer que não queremos algo que não conhecemos. Para escolher bem, precisamos escolher mal. Escolher errado, para depois descobrir que não queremos mais escolher errado. Se não sabemos o valor de uma coisa, o que ela representa para nós, se não sabemos a que estamos renunciando, não podemos honestamente dizer que não a queremos mais. Desistir de uma coisa por outra coisa significa entender que precisamos mais de uma coisa do que de outra. Mas se não conhecemos completamente uma das coisas, como podemos decidir isso?
E só podemos entender completamente essa escolha, essa renúncia à busca rápida do prazer, quando encontramos um amor verdadeiro. Não porque ele nos impede de pensar em outras pessoas. Na verdade, estando muito bem com a pessoa que amamos podemos sentir a vontade de algo mais, ao passo que estando numa crise difícil, é possível que não tenhamos essa ânsia. Mas porque descobrimos que a felicidade é muito mais do que um prazer atrás do outro. Que a felicidade não é sentir mais prazer do que dor. Para ser sincero, a felicidade através do amor – de homem para mulher, de pai para filho – traz uma grande quantidade de dor também. Mas isso tem uma importância menor porque, uma vez que você ama, as coisas são simplesmente diferentes. Quando a dor dá um descanso para seu coração, você sentirá uma felicidade estranha, diferente. Isso é amor. Amor é algo que, no fundo, pode ser independente do ser amado. Mesmo sem essa pessoa que balança nosso coração, a gente simplesmente é feliz. Sei que parece estranho, mas é verdade. O que traz dor é a angústia, a decepção, o medo, a saudade. Quando isso some do horizonte, um sentimento bom transparece. E acho que uma vez que você começa a amar, simplesmente não consegue deixar de.
Cheguei à conclusão de que paixões não valem o sacrifício de nossa paz, de um amor. E quando aprendemos isso, estamos aptos a adiar o prazer, algo que buscamos a vida inteira. Você dá uma bala para a criança e diz: se você não chupar essa bala até o fim da semana, eu te dou 10 balas iguais. Ou se você trocar prazeres fugazes por um amor verdadeiro e sincero, viverá uma vida com mais paz interior e felicidade.
Também descobri que podemos nos apaixonar continuamente pela mesma pessoa. E aí entendi porque os mais experientes dizem que um relacionamento dá trabalho, mas que é fácil quando é a pessoa certa. Um relacionamento dá trabalho porque você precisa se esforçar para mantê-lo funcionando bem, para continuar se apaixonando todos os dias, mas é fácil porque esse esforço é prazeroso.
Divago, eu sei. Mas é preciso.
Enfim, quem vive de calafrios talvez não descubra o que é ser feliz no amor. Procurar apenas o prazer, muitas e muitas vezes. Isso não tem fim. E amar é um fim em si só. Não quero mais ser um hedonista. E tenho a impressão de que ser feliz é acordar de manhã e ser capaz de encontrar algo para sorrir.
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O divórcio de Romeu e Julieta
5 05 2004Li um texto, certa vez, que dizia que o único romantismo verdadeiro era fazer um sacrifício pelo ser amado sem que ele viesse a saber. Também dizia que isso era uma das coisas mais tristes desse gesto, pois uma vez anunciado, perdia o valor. Estive pensando em relacionamentos ultimamente, tentando entender o que deu errado no meu. E cheguei à conclusão de que esse tipo de sacrifício não é romantismo. Isso é fadar o relacionamento ao fracasso. Ninguém faz nada de graça. E ninguém tem culpa disso. Todos os atos que realizamos são, sim, egoístas. Se procuramos agradar quem amamos é porque o amor nos faz agir dessa forma. Porque isso nos faz felizes. Mas eventualmente vamos cobrar um preço por nossas renúncias.
Não que não devamos nos sacrificar pela pessoa amada. Pequenos sacrifícios são parte do amor. Mas eles devem vir dos dois lados. E mais, não devem significar a morte de um lado que nos é essencial. Na hora de uma crise, é claro que faremos o que é preciso. Sacrificaríamos tudo o que temos para estar com a pessoa que amamos. Mas, sinceramente, qual é a coisa mais importante na sua vida? Para mim, e descobri isso com o fim do meu namoro, é escrever. E se eu tivesse que desistir de escrever para estar com a pessoa que amo, acabando com toda a dor e sofrimento que eu e ela temos sentido, eu o faria. Faria porque amo, porque sinto dor e sofrimento. Mas um dia, eu me colocaria diante dessa escolha novamente. E, francamente, não sei se posso viver sem escrever. Não há nada pior do que ser escolhido e depois desescolhido. Nunca devemos cobrar um preço tão alto de alguém, porque esse é o preço do fim. E quando você perceber, poderá ser tarde demais.
Sacrifícios extremos por amor só funcionam nos livros ou filmes, mas eles nunca mostram o fim. Romeu e Julieta. Poderiam eles ser felizes se Romeu tivesse sabido do estratagema do falso veneno? Um dia, muitos anos depois, longe de casa, os dois teriam saudades de seus pais, de seus amigos, de suas vidas. E a escolha pesaria sobre ambos. Um fantasma assombraria seu amor. O casamento fatalmente sofreria. Porque o problema das escolhas difíceis é que temos que fazê-las todo dia. E uma hora elas serão tentadoras demais. Todos temos nosso preço, e quando os sacrifícios atingem esse valor, tudo poderá se perder. Talvez, e isso bem provável, essa escolha arruinasse a maior das histórias de amor. E é por isso que o final de Romeu e Julieta é perfeito. Juntos, provavelmente eles se castigariam para sempre por essa decisão. Se ambos não tivessem morrido, provavelmente não teríamos uma belíssima história de amor. Teríamos um drama, o fim de um relacionamento. Ou uma sitcom.
Não acho que não devamos fazer algumas escolhas difíceis num relacionamento. Mas será que podemos mesmo renunciar a algo fundamental em nossa vida para estar com essa pessoa? Não existe outra maneira? Devemos nos sacrificar em alguns momentos por quem amamos, e sem esperar nada em troca. Mas ou recebemos algo em troca, ou o relacionamento fica desigual. Cedo ou tarde a escolha nos alcança e nos faz pensar “e se?”. E será tarde demais.
E a verdade é que certos favores não se pede. E também não se cobra.
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A certeza da dúvida
22 04 2004Se existe algo com que podemos contar durante toda a nossa vida é a dúvida. Percebi, nos últimos tempos, o quanto a dúvida nos mostra a verdade sobre o que sentimos ou queremos. Entendo agora que, muitas vezes, algo nos é tão importante, mas ao mesmo tempo tão modificador e inevitável, que criamos barreiras, que procuramos motivos para não aceitar essa coisa. Por isso mesmo, acabamos não tendo certeza. Não sabemos se queremos ou não. Sabe de uma coisa? É exatamente ao contrário do que pregam: se você não quisesse, saberia. Quantas vezes você não quis uma coisa com uma certeza inacreditável? E quantas vezes você teve essa certeza sobre algo que você queria? Quando prestou vestibular, tinha certeza da escolha? Como poderia? Não conhecia o suficiente a escolha que estava tomando. A verdade é que quando algo é grande demais, a dúvida vem. E quantas vezes você estava em dúvida sobre alguma coisa e, depois que criou coragem e fez, percebeu que tinha feito a coisa certa?
Acho que todo mundo tem medo de casar. Casar significa se comprometer com algo, alguém, e aceitar que isso deve ser para sempre. E para sempre é tempo demais. Acho que o grande problema é exatamente esse. Se as pessoas aceitassem que querem alguma coisa, ao invés de ficar pensando até que ponto querem e por quanto tempo quererão, a vida seria muito mais fácil. As coisas que realmente valem a pena nessa vida também trazem milhares de dúvidas. É como saltar de Bungee Jump. Você terá dúvida até o último segundo. Na verdade, o momento de maior dúvida e hesitação será exatamente o momento do salto, aquele ponto em que você já está preso à corda, parado à beira do abismo. E encarando o vazio. Será que a corda está bem presa? Será que eu vou sobreviver? Difícil de dizer antes do fim. São os riscos das grandes decisões. Mas pense bem: você já está aqui e as chances de algo dar errado são pequenas. O benefício, o prazer, enormes. Vai perder a chance? Se realmente não quisesse fazê-lo, você dificilmente teria chegado a esse ponto.
Então, quando estiver numa dúvida existencial incrível, pense bem: se você tivesse certeza, ela seria de que você não quer fazer isso. A gente só tem certeza de que quer algo depois que já fez. Ou depois que perdeu essa chance – e aí já é tarde. Eu já me arrependi demais por não ter feito algo devido por não estar certo de querer. E também já fui muito feliz, nas vezes em que aceitei a dúvida como parte da certeza. Aprendi minha lição. Em dúvida, salte.
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Escreveu. Não leu. Não escreveu.
19 04 2004Lidando dia a dia com textos vindos das mais diversas fontes, incluída aí a internet, comecei a perceber algo que deve até ser bem claro para muitos. As pessoas não sabem escrever. Ou melhor, as pessoas sabem escrever. Elas não sabem é ler.
Digo isso porque acredito que a capacidade de alguém escrever está intimamente ligada a quanto ela lê ou o que ela lê. Se ela só folheia livros de auto-ajuda, dificilmente vai conseguir fugir à verborragia demagógica típica dessas publicações. Ou seja, sabe escrever, conhece as letras e muitas palavras, mas não tem referências para conectá-las da melhor forma. Em oposição, é altamente improvável que alguém que leia um volume respeitável e constante de livros não consiga se expressar bem por meio da palavra escrita, mesmo que não se considere criativo. Criatividade nem está em pauta aqui, embora eu acredite que ela tem a ver com a quantidade de estímulos que recebemos – quanto mais lemos, mais informação temos, maior a possibilidade de associações novas. Falo de linguagem mesmo. De bom português. Na hora de dizer o que pensa, muita gente acaba se afogando em frases desconexas e vírgulas fora de lugar. Pior, costumam utilizar-se de jargão técnico para camuflar a falta de conteúdo. Quer um exemplo dessa linguagem? Resultado: a nível des, gerundismos e afins.
E não, isso não é uma daquelas apologias aos Clássicos. Para dizer a verdade, e que nenhum professor de literatura me escute, os Clássicos muitas vezes são chatos. Terrível e irremediavelmente chatos. E, nas palavras de um amigo goiano, é bobagem perder nosso tempo com livros que não gostamos. Livros devem ser um prazer além de serem fonte de conhecimento e cultura. Lê-los pela estrutura sofisticada ou pela linguagem rebuscada? A vida é curta, os livros muitos.
As pessoas têm preguiça de ler. Gostam de tudo mastigadinho. Ou não prestam muita atenção ao que estão lendo. Ler também é interpretar, entender, imaginar, mergulhar nessa outra realidade. Ver os rostos, as cidades, as histórias, como num filme. A diferença é que o diretor de fotografia é você.
A questão não é nem escrever profissionalmente. Não estou pensando em editoriais, matérias ou livros. Mas na escrita diária. Naquele recado pendurado na geladeira que a gente deixa para o pai ou o bilhete apaixonado que mandamos para a namorada. Naquele e-mail que enviamos para os amigos. A redação clara e concisa, como já diziam nossos professores, tornam a leitura e a comunicação da mensagem muito mais fácil. Vírgulas fora de lugar, texto sem pontuação, grafia incorreta. Tudo isso, no mínimo, quebra o ritmo da leitura. No máximo, torna a mensagem incompreensível. São aqueles textos que exigem duas ou três releituras para uma compreensão satisfatória.
Volto ao ponto inicial: as pessoas sabem escrever, não sabem ler. Escrevem o que lêem, e quando não lêem não sabem como se expressar.
E muitos tem preguiça também de pontuar e escrever direito. Acabam escrevendo textos sem muito sentido. Tenho uma birra muito grande com quem acha que escrever é só ir colocando palavras no papel, sem se preocupar se elas estão corretas, se estão bem concatenadas. Jogando vírgulas para o alto e que caiam onde lhes convier. Birra mesmo. Não é purismo. A língua deve servir a nós, e não o contrário. Mas sou partidário da idéia de que precisamos conhecer as regras antes de quebrá-las. É preciso saber quando quebrá-las, com que intuito.
A impressão que tenho é, que para muita gente – e aqui já falo de quem trabalha com a palavra escrita – português correto é pedantismo. Só que não é bem assim. Um texto claro e sem erros é muito mais fácil de ler. Sem palavrismos. Não faz muito sentido que alguém que vive da escrita, seja jornalista, publicitário, ou que use o português constantemente, como advogados e outros escritores casuais, não dão o devido respeito à sua ferramenta de trabalho. Errar, todos erramos. Mas daí a insistir que faz assim de propósito, ou que não é importante escrever tão corretamente. Enfim, desdenhar do português. É o mesmo que um mecânico que só usa o martelo para consertar tudo. Nunca se usa um martelo quando se tenta consertar um carro. É, o problema é que tem muito texto martelado por aí.
Divagações e desabafos à parte, uma boa forma de aprender português de uma maneira fácil e divertida é ler. Sempre. Pode ser até pote de margarina e embalagem de sucrilhos. Ler bulas de remédios e placas de trânsito. Ler livros bons e ruins. J.K. Rowling e Paulo Coelho. José Saramago e Machado de Assis. Ler a ponto de querer fugir para um mundo sem palavras – isso acontece. Mas nem assim desistir, porque isso passa e a vontade retorna.
Leia de modo que você não precise nem mesmo pensar nas palavras. Deixe-as fluir, como um músico faz com as notas. Isso! Leia como um músico tocando um instrumento e não como um matemático fazendo cálculos. Leia sem ver as palavras, pois muitas vezes elas atrapalham. E compreenda o que leu. Vez ou outra, leia um livro que você não consegue entender, sequer terminar o primeiro capítulo. Tente, tente, tente entendê-lo. Interprete-o. Mas se as coisas complicarem, coloque-o de lado. Não tem nada de errado nisso. Agora não me lembro quem disse que só conseguiu apreciar a Divina Comédia na terceira ou quarta leitura – tenho a impressão que foi Woody Allen. Mas depois de um tempo tente ler novamente esse livro. Tenho a impressão de que os livros têm uma dinâmica muito especial: nos encontram somente na hora certa, nunca antes. Foi assim que eu vim a ler As Brumas de Avalon. Tentei duas vezes e desisti. Não consegui terminar nem o primeiro capítulo. Depois de uns dois anos, comecei novamente. E devorei todos os livros da série. E, para ser sincero, odiei a Divina Comédia.
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Coisas que eu odeio no ônibus
8 04 2004Odeio pegar ônibus. Odeio quando alguém está vendendo alguma coisa e coloca um pacote no seu colo. Mesmo que você diga não, enfaticamente. Odeio a palavra busão. Odeio quando chove e dentro fica abafado e ninguém abre a janela e todo mundo fica suado e se encostando. Odeio que os motoristas os chamem de carros. Odeio quando os carros estão lotados e mesmo assim o motorista insiste em parar para pegar mais gente. Odeio quando jogam lixo pela janela. Odeio que ninguém se levante para deixar um idoso ou grávida se sentar. Odeio quando essa pessoa, ainda por cima, está sentada no lugar RESERVADO para idosos e grávidas. Odeio quando o ônibus pára no ponto quando o farol está verde e sai quando já fechou. Odeio quando seu ponto está a menos de 20 metros, mas o farol fechou e o motorista não deixa você descer. E você está atrasado. Odeio quando entram pessoas que começam a falar alto e todos são obrigados a ouvir suas divertidas peripécias. Odeio quando você dorme e alguém passa e dá um puta esbarrão e você quase cai do banco. Odeio o fato de que quase todas as janelas de ônibus só abrem em cima. Quando abrem. Odeio quando é horário de pico e o ônibus está cheio e ele quebra e temos que pegar outro ônibus, igualmente cheio, mas agora tendo que espremer o dobro de pessoas. Odeio quando estamos atrasados e o motorista andam mole, mole. Odeio quando o motorista faz curvas correndo e todas as pessoas caem umas sobre as outras. Odeio o fato de que ônibus entram em greve e conseguem piorar o que já está ruim. Eu odeio ter que pegar ônibus.
Coisas que eu adoro no ônibus
Adoro ultrapassá-los em alta velocidade.
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O H da questão
6 02 2004Outro dia estava discutindo com uns amigos sobre o hímen. Não, não me perguntem como o assunto surgiu. Ele simplesmente estava lá. Insistente, impertinente, desbocado.
Éramos 6. No grupo, uma bióloga e um gay. E, por incrível que pareça, ninguém jamais vira um hímen. Até faz sentido que um gay nunca tenha visto um hímen. Mas nem mesmo a bióloga ter visto? Algo de podre no Reino do Tabu.
Fomos procurar na internet o tão falado causador de discórdias. Buscamos no Google e eis que aparece a foto de um cara. Vá em frente, entre no Google Images e digite Hímen. Procure. Ta vendo esse cara aí? Provavelmente deve ser um colecionador de cabaços. Violador de lacres. Caçador de membranas íntimas.
Enfim, continuamos a busca e nem uma mísera foto. Desistimos. Cada um foi para o seu lado com a dúvida na cabeça (ops).
Depois comecei a pensar muito nisso. Por que ninguém conhece o Hímen? Salvo ginecologistas, poucos já viram a película fugidia. Fiz uma enquete. As pessoas tornam-se muito estranhas quando perguntamos pra elas se o hímen é um conhecido seu…
Pensando bem, isso não é nenhum absurdo. Como as garotas mesmo disseram, de onde estão elas não conseguem ver. Já para um rapaz a situação é ainda mais complicada.
Admitindo que um rapaz tenha a chance de deflorar uma garota, coisa cada vez mais rara hoje em dia encontrar virgens . Mesmo assim as chances de ele ver o tabu em pessoa são mínimas. Afinal, na primeira vez o casal está um tanto nervoso, metendo os pés pelas mãos, entre outras coisas em outras coisas. Dificilmente o rapaz vai dizer – peraí, deixa eu dar uma olhadinha aqui embaixo -.
E mesmo que o garoto tenha a presença de espírito de tentar uma aproximação alternativa, a menina provavelmente não se sentirá muito à vontade nessa situação embaraçosa. Afinal, ficar numa boa em relação ao próprio corpo e com o ato sexual é algo que pode levar tempo e treino. Claro, existem casos em que antes de chegar no aquilonaquilo, o casal passa por várias etapas de intimidade, mas em geral o casal adolescente nem tira direito a roupa no começo, é aquele lance aproveitaqueaminhamãefoicomprarpão.
Agora, sinceramente, isso é culpa de nossa sociedade e seus preconceitos. Na verdade, o melhor mesmo seria que tirassem os hímens dos recém-nascido, assim como fazem com o prepúcio dos pequenos judeus. Essa idéia não é minha, eu li num livro, mas faz bastante sentido. Não seria mais saudável se não existisse toda esse encanação com a virgindade? Já soube de vários casos em que o namorado rejeita a namorada por causa da maldita pelinha. Em alguns casos, foi ele mesmo o algoz.
E afinal, pra que ela serve? E, servindo pra alguma coisa, faz tanta diferença? Tanto sangue derramado por causa de um pedaço de carne inútil… Deixa pra lá.
É provável que exista alguém vendendo um hímen no ebay: – Hímen com 2 anos de uso, mas em perfeitas condições. Qualquer dúvida, faça uma pergunta -. Hehehe. Boa, Marcel.
Hmmm… Imagino que algumas lésbicas possam ter visto o hímen. Será?
Outra possibilidade
Ou então, o hímen realmente não existe. É como cabeça de bacalhau e chester. Todo mundo ouve falar mas nunca viu. É, acho q foi a igreja que inventou e incutiu nas mentes das pessoas. Tenho certeza.
Então vamos lá, quero todo mundo mentalizando: O hímen não existe… O hímen não existe…
Quem sabe ele desaparece…
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