por Mário Quintana
- Mas por que você não escreve umas coisas mais sérias?
- Ora, tia Élida! Eu já não sou mais criança…
por Mário Quintana
- Mas por que você não escreve umas coisas mais sérias?
- Ora, tia Élida! Eu já não sou mais criança…
Hoje eu vi no meu blog que não escrevo nada desde novembro. Estou com alguns textos sendo cozidos em banho maria, mas sei lá quando ficarão prontos. O pior é que perdi um backup com todos os meus arquivos, inclusive textos. Ainda bem que dei uma sorte e um texto que eu mandei para um concurso literario ainda não tinha sido incinerado, e eu vou recuperá-lo.
Mas o fato é que hoje eu entrei no blog da Thaís Fabris, o Pescaria de Palavras, link ao lado, e li algo muito bonito sobre um lugar que amo. E, por isso, vou fazer algo que eu nunca faço: vou colocar esse texto aqui, porque é muito bom.
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Você devia ver São Paulo como eu vejo, num fim de tarde com brisa fresca, o alfalto molhado refletindo a luz dos postes, uma fileira de luzinhas vermelhas indo, outra de luzes brancas vindo, a brisa arrepiando os pêlos do braço.
Você devia ver a São Paulo que eu vejo, em uma noite fria de inverno, luva, gorro, cachecol, o calor de um abraço amigo. Você devia ver a cidade do alto, todas as janelas dos apartamentos, cada janela, uma vida.
Você devia ver a Vila Madalena em um domingo de verão, o Centro e seus prédios antigos, o Mercadão. Você devia ver a Paulista em qualquer dia, e devia ver bem, pra entender melhor a cidade.
Só não devia ver a Berrini. E o Morumbi. Aquilo pra mim não faz sentido. Mas devia ver a Marginal só por curiosidade: o maior estacionamento do mundo! Devia subir a Marginal Pinheiros durante a semana em um Gol com 5 pessoas queridas e entender que o trânsito não é tão ruim assim.
Você devia andar de ônibus conversando com o cobrador. Você devia se perder um dia e ir parar no Grajaú. Você devia sentar pra tomar uma cerveja olhando pra faculdade mais bonita de São Paulo: a minha. E devia, não sempre que os dinheiros são poucos, mas quando desse, comer um pão de calabreza no Braz. E sempre que possível, sentar em uma calçada na Liberdade pra comer um Yakissoba.
Você devia ver a São Paulo que eu vejo, infinita, caótica, cinza. Enormemente acolhedora. Com seu asfalto eternamente molhado pela garoa. Então você ia entender como se pode amar São Paulo.
Quem não tem na cabeça uma palavra que, sempre que pronunciada, parece estar errada? Aquela impressão de que a maneira certa é Rúbrica, Substântivo, Célebro, Losângulo, adevogado. Algumas palavras simplesmente deveriam ser escritas de outra maneira. Não sei bem o motivo disso, mas todos temos um sentimento especial por algumas palavras, uma estranheza, como se alguém tivesse se enganado na hora de distribuir as letras e sílabas tônicas. Talvez resida aí a razão pela qual tanta gente escreve quizer ao invés de quiser. Antes do advento do corretor automático do Word, que também não é lá muito confiável, devia ser tortura chinesa para os professores ler trabalhos dos alunos. Assim como é ler alguns blogs que estão por aí, à deriva na internet.
Mas ortografia às vezes atrapalha, incomoda, não nos deixa dizer as coisas com a devida sonoridade. Não permite que enchamos a boca com a palavra e façamos um gargarejo, antes de cuspí-la na conversa. Hmmm, essa palavra tem um gosto amadeirado, com um toque de maçã. É suave, porém safada.
E quem nunca sentiu um prazer todo especial em dizer rúbrica? Uma delícia. Substântivo! E tem também aquelas palavras cativas, que se pudéssemos incluiríamos em todas as conversas. Intrínseco. Falácia. E em outras línguas, conundrum (essa é minha preferida absoluta em inglês), popular (com sotaque estadunidense). E expressões. A mi me encanta. Poesia pura.
Rubem Alves disse, na Folha de domingo, que toda leitura tem seu ritmo. E eu sempre senti isso. Tem coisas que simplesmente devem ser ditas de uma certa maneira, ou perdem sentido. Seja pela aliteração, pela pontuação, ler bem significa captar o ritmo certo. Mas as palavras também tem música própria, e quando prestamos atenção, podemos encontrar belíssimas sinfonias. É como se cada letra fosse uma nota; cada sílaba um acorde. Sendo assim, podemos ter más combinações de acorde e tempos errados. Essa característica das palavras explica ao mesmo tempo más construções frasais e as palavras que intuímos estarem escritas de forma equivocada. Elas devem estar em outro tipo de escala musical. Talvez aquela oriental, baseada não em 7, mas em 12 notas.
Tem uma coisa que sempre me incomodou: não dá pra ler todos os livros, assistir a todos os filmes, visitar todos os lugares do mundo. Sempre me senti meio frustrado com isso. Como escrevi anteriormente: “A vida é curta, os livros muitos”. Essa é uma preocupação recorrente, e sempre que vou pegar um novo livro para ler, imagino se valerá a pena. Penso se estou pronto para ele, ele para mim. Imagino se não poderia estar lendo outra coisa mais interessante. Quando começamos a ler um livro, nunca sabemos se pode ser uma viagem perdida. Então, na eterna dúvida do que ler em seguida reside outra, ainda mais problemática: devemos reler um bom livro?
Existem livros que nos marcam muito. Ainda assim, o tempo passa, e detalhes importantes se perdem nos recônditos da nossa memória. Ou talvez sintamos saudades daquele mundo que, certa vez, visitamos. Pare e pense por um minuto num livro que marcou você. O que foi que marcou? Os milucos do Dia do Curinga? Os ciganos de Macondo? Os canhões floridos do O Menino do Dedo Verde? Ou a dedicatória de Memórias Póstumas de Brás Cubas? Pois é. Dá uma saudade… E nessas horas o dilema é terrível. Por um lado, já sabemos que o livro será bom. Por outro, é tempo precioso, em que poderíamos estar conhecendo um novo mundo. Reler ou não reler? Ah, como eu gostaria visitar Macondo, acenar para os Buendía. Sentar no barco, ao lado de Deus, Jesus e o Diabo para ouvir a conversa imaginada por Saramago. Enlouquecer com Tyler Durdeen nos porões do Clube da Luta.
Não tenho a certeza, mas a impressão de que velhos amigos merecem uma visita ocasional.