Visitando Macondo

7 06 2004

Tem uma coisa que sempre me incomodou: não dá pra ler todos os livros, assistir a todos os filmes, visitar todos os lugares do mundo. Sempre me senti meio frustrado com isso. Como escrevi anteriormente: “A vida é curta, os livros muitos”. Essa é uma preocupação recorrente, e sempre que vou pegar um novo livro para ler, imagino se valerá a pena. Penso se estou pronto para ele, ele para mim. Imagino se não poderia estar lendo outra coisa mais interessante. Quando começamos a ler um livro, nunca sabemos se pode ser uma viagem perdida. Então, na eterna dúvida do que ler em seguida reside outra, ainda mais problemática: devemos reler um bom livro?
Existem livros que nos marcam muito. Ainda assim, o tempo passa, e detalhes importantes se perdem nos recônditos da nossa memória. Ou talvez sintamos saudades daquele mundo que, certa vez, visitamos. Pare e pense por um minuto num livro que marcou você. O que foi que marcou? Os milucos do Dia do Curinga? Os ciganos de Macondo? Os canhões floridos do O Menino do Dedo Verde? Ou a dedicatória de Memórias Póstumas de Brás Cubas? Pois é. Dá uma saudade… E nessas horas o dilema é terrível. Por um lado, já sabemos que o livro será bom. Por outro, é tempo precioso, em que poderíamos estar conhecendo um novo mundo. Reler ou não reler? Ah, como eu gostaria visitar Macondo, acenar para os Buendía. Sentar no barco, ao lado de Deus, Jesus e o Diabo para ouvir a conversa imaginada por Saramago. Enlouquecer com Tyler Durdeen nos porões do Clube da Luta.
Não tenho a certeza, mas a impressão de que velhos amigos merecem uma visita ocasional.





Para comer de colher

25 05 2004

Acho que os visitantes merecem uma explicação minha. Afinal, sou indicado no Blogs of Note e desapareço… É o seguinte: passei a última semana fazendo uma lavagem cerebral. Senti que estava precisando, sabe? Tava cheio de idéias antigas, memória fora de lugar… É mais ou menos como fazer a desfragmentação de disco, só que mais chato (não tem aqueles quadradinhos coloridos pulando de um lugar pro outro). E vocês não têm idéia de como aquelas dobrinhas encefálicas acumulam sujeira…
Enfim, faz um tempo que eu quero dar algum sentido à seção Livros, então resolvi falar um pouco sobre alguns dos que estão aí. Mesmo porque vou substituí-los em breve. Vamos lá:
Dom Casmurro. Só existe um comentário pertinente: Machado de Assis. Tá, vou elaborar… Afinal, e vamos para um lugar comum, Capitu traiu ou não traiu? Sinceramente eu não tive dúvidas de que sim. Mas talvez não. Não há provas. O mais incrível é a capacidade do Machado de plantar a sementinha na nossa cabeça durante o livro, sem que nem percebamos. Nós mesmos estamos acusando quando menos esperamos. Mas não há prova da traição. Não há corpo nem arma do crime. Então não há crime. Putz, até eu fiquei confuso.
O Ócio Criativo. Podem até dizer que é utopia. Mas acho que é no mínimo um sonho muito bom, algo pelo que lutar. Claro, modificar a sociedade a esse ponto é muito complicado, mas o exemplo dos trabalhadores que comem banana, é muito sugestivo. Afinal, em que tipo de sociedade vivemos ainda? E ócio criativo não tem nada a ver com ficar na cama dormindo. Tem a ver com juntar a diversão, o trabalho e o aprendizado numa coisa só. Produzir sempre, e se divertir sempre. Show de bola.

E, atendendo ao pedido de uma amiga, um dos primeiros livros que me marcou. Não digo o primeiro, porque faz muito tempo, mas um dos:

Cem Anos de Solidão. Gabriel Garcia Márquez marcou minha infância com sua literatura fantástica. A imagem do Velho Buendía no quartinho dos fundos, fazendo alquimia. O primeiro encontro do povo de Macondo com o gelo trazido pelos ciganos. É incrível a forma como esse prêmio Nobel descreve a vida de uma família numa cidadezinha qualquer, mas de uma forma brilhante, cheia de fantasia, mas impregnada de realidade. Lembro-me bem de ficar pasmo ao ver que todos os filhos tinham o mesmo nome, e as mesmas características. Exceto os gêmeos. Mas eles devem ter sido trocados quando pequenos. Dá uma vontade de passear por Macondo novamente…