Existe outro blog

24 09 2009

Na verdade, outros dois blogs em que escrevo. Para literatura, leia o Meias Histórias. Para sustentabilidade, dê uma olhada no Quintal. Vejo você lá(S).





Morreu

16 01 2008

Esse blog morreu.

Vão embora.





Páscoa

11 04 2007

Hoje eu nasci e ninguém vai atravessar essa porta. São 14 anos e sete mágoas, cada mágoa com sua certeza. Catorze anos de dor que não cabem nesse corpo, cheio, inchado. É preciso crescer logo pra não rasgar essa pele, para caber dentro de mim. Mas eu já sei, já vi o que acontece: hoje ninguém vai atravessar aquela porta. E eu vou assoprar as velas sozinho e guardar os aplausos para outro ano qualquer. Porque o fato é que algum tempo vai se arrastar até eu ter quem me felicite por qualquer coisa. Nem que seja por essa persistência em respirar, de continuar por aqui, nesse quarto abafado, nessa cama úmida de suor. Que eu continuo vivo; sobrevivo. Não há mesmo o que celebrar. O que há é essa miserável existência, e por mais que eu procure atrair outros praqui, o trinco emperra, o chão se abre e o cômodo esmaga. Meu corpo me esmaga. Eu moro aqui, desse lado do batente, torcendo pra um dia achar alguém que me felicite.

São catorze velas no bolo e oito mágoas dentro de mim.





Degustação

6 06 2006

Era um homem de bem, desses que são modelo de pai, marido, funcionário. Trabalhador, responsável. Não fosse o seu único prazer, algo moralmente repreensível:

Mais? Só no Aquele #17





Lá do outro lado do mar tinha uma pequena ilha.

24 04 2006

O dono – possuía um dono a ilha – era um homem rico e muito sozinho, que contratou um pescador para ficar de olho na sua ausência. E, na ausência do homem, sete anos marcou o olho do pescador. Esquecimento, morte, por todo canto o boato corria. Mas sempre o preto velho, ouvido por ouvidos moucos, dizia: cansou-se de passar os dias só, naquela pequena imensidão que era ficar na deserta ilha. Fato é, que não voltou; e o povo acabou esquecendo quase de vez.

E, só quando apareceu um turista, indagando pela pequena porção de árvores atravessada lá na baía, é que apontaram para uma casa na vila, orgulho e inveja amarrados em laço de fita: quem conhecia bem era o Bira, mas agora ele dorme no mar.

Coitado.





Mudei

31 03 2006

Mudei o foco do blog. Um blog de textos inteiro era mais um desserviço do que qualquer coisa. Agora eu postarei meias histórias, pedaços de mundo. Vez ou outra um conto de cabo a rabo. Mas não esperem por isso. Quem quiser histórias completas, tem sempre o Aquele, que por sinal vai ao ar amanhã. O primeiro texto da nova leva está aí embaixo. Quem quiser dar palpites, fique à vontade (embora ninguém entre mais aqui).





Alva

31 03 2006

Entre nascer e morrer passou-se um instante. A pequena promessa que ali estivera, dia após dia – um botão! – se concretizava em explosão de beleza. Quem imaginaria que tanta luz pudesse sair daquele ínfimo embrião de coisa. E na efemeridade, que era o catalisador da sua beleza, jazia também a semente do fim. Navalha, cordão umbilical, e agora ali, entre tantas iguais: um berçario de cores. Estufa de bebês matizados: rosa, vermelho, amarelo – amarelo! – mas a alvura pálida marcava sua presença: única: rainha entre princesas.

Semi-aberta, como temendo olhar o mundo de frente, esperava seu momento em meio a tantas outras esperas. Veio o dedo que apontou, numa sentença irrevogável o fim, essa. A alva rosa a enrubescer as faces petalares.





E o Aquele está no ar

4 11 2005

Cliquem no selo aí do lado e confiram.





Desafio da Olivia (sem acento)

4 11 2005

Alguns meses atrás a Olivia me desafiou (e a alguns outros) a continuar um texto que ela tinha começado. O resultado, já postado por ela, eu finalmente trago para cá.

E devido e inúmeras 4 reclamações, vou dar um jeito de postar algo novo aqui de vez em quando. De início, estou com um projeto de reavaliar coisas antigas colocadas aqui. Acertar aqui e ali e ver no que dá. Uma das coisas interessantes de ler sempre, escrever sempre, e reler vez ou outra o que fez no passado, é que você nota erros tão simples de se arrumar – e outros quase impossíveis. A gente ganha mais clareza e objetividade na avaliação do texto. Então vou fazer isso. Inclusive, uma versão aprimorada de um dos meus contos eu enviei para um concurso literário. Vamos ver no que dá. Enquanto isso, leiam o texto:

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Instantes

“Infindo e onipresente, o nada envolvia cada recanto de sua consciência” – Joseph Glittergate

O quarto era escuro e a figura sentada sobre a cama não se movia. O silêncio pulsava com a cadência da sua respiração. Uma luz entrava fraca e esverdeada pela fresta de janela aberta e iluminava um retângulo na parede oposta. As mãos apoiadas na borda do colchão e os pés em simetria tocando o chão. Uma espécie de ruído chegava da rua; carros passando e prostitutas que conversavam com vozes esganiçadas.

Ele não ouvia, imerso em seu mundo estático de sombras. Era o silêncio e o silêncio nascia dele, em ondas, inspirando e expirando.

Um quarto sujo de um hotel pobre em um bairro esquecido, ele pensava, e pensava também em outros adjetivos que poderiam caber naquele lugar tão feio. E tomou todos aqueles adjetivos para si conforme os enumerava, e os adjetivos sentavam-se ao seu lado e o tomavam para si também. Decadente, abandonado e triste, e outros tantos adjetivos que quando muito juntos perdiam o significado e viravam seqüências idiotas de sons.

Passos no corredor. Fugiram os adjetivos e o silêncio se escondeu embaixo da cama. O homem levantou-se e fez ranger as molas do colchão, e o silêncio pulou pela janela.

Decidiu. Da cabeceira, assomou a arma. Retesou o pulmão. Engatilhada, o cano aproximou-se sem emitir som. O silêncio gritou um aviso, a bala respondeu num dó torto. E o silêncio voltou ao recinto.

Desta vez, permanente.





Aquele #9

4 10 2005