Quem me conhece sabe que sou muitas coisas, menos místico. Acredito em Ciência e Filosofia. No autoconhecimento, mas não na auto-ajuda. Sempre olhei com muita desconfiança qualquer coisa que tivesse no nome as palavras cura, amor, segredos, felicidade, crescimento e motivação, ou qualquer combinação entre elas. Qualquer pessoa que comece a falar de experiências transformadoras já perde muitos pontos comigo. Certa vez, uma tia, minha que lê bastante e me conhece bem, presenteou-me no Natal com um livro. O título? Felicidade. Esbocei um sorriso sem graça, mas ela logo afirmou: não é auto-ajuda. Respirei aliviado e fiquei contente ao descobrir que era um debate filosófico (muito bom, por sinal) sobre a felicidade.
Voltando ao assunto, sempre tive uma certa reserva com assuntos auto-ajudísticos. Em contrapartida, tento respeitar o que os outros acham a esse respeito. Cada um acredita naquilo que lhe convém. Alguns livros, inclusive, são erroneamente catalogados dessa forma, e às vezes temos boas surpresas como o, já citado, Felicidade e O Ócio Criativo.
Mas vamos à história. Conversei com minha mãe, psicóloga, sobre fazer terapia. Ela disse que uma colega havia falado de uma psicoterapia chamada “Constelações Familiares”. Desconfiei mas, como minha mãe me conhece e partilha muitas das minhas convicções a esse respeito, dei um voto de confiança. Nas palavras da colega, era “transformador”. Meu radar captou algo estranho, mas resolvi ignorar.
Para não ir sozinho, convidei uma amiga. Fomos, os dois, numa quinta à noite. A Palestra, de duas horas, seria ministrada numa livraria. Chegamos lá e já achei muito estranho o ambiente: livros de auto-ajuda, incenso, misticismo em geral. Mas até que tinha alguns presentes legais. Sentamos numa pequena sala e logo entraram as palestrantes. Uma delas tinha um enfeite na testa, que lembrava um terceiro olho. Mas tudo bem. Pode ser um resquício da novela O Clone.
A explanação começou e tudo corria bem. Falou-se de psicoterapia, de estudos, de como um fato acontecido na família, como um tio suicida ou uma morte prematura podia afetar cada um dos membros da família, criando nós ou emaranhamentos. Faz sentido. A presença constante da memória desse fato realmente deve criar problemas para todos os membros. Mas quando ela falou que isso podia ir até a 7ª geração de ascendentes, senti que havia algo de podre no reino da Dinamarca. Acabou a parte discursiva, começou a demonstração do método. Uma pessoa da platéia se ofereceu para falar de seu problema e achei que se trataria de uma espécie de terapia de grupo aliada ao psicodrama. Técnicas conhecidas e difundidas. Virei para minha amiga e disse: a gente nunca sabe, vai que funciona mesmo…
A mulher contou sobre o problema com seu filho que era incontrolável. Na verdade, foi praticamente só o que ela disse. A “facilitadora” (até arrepia ouvir um termo desses) pediu que ela escolhesse duas pessoas entre os presentes para representá-la e ao filho. Claro, Murphy sorriu e disse: vocês. E eu e minha companheira de aventuras nos levantamos e ficamos frente a frente, ela a mãe, eu o filho. Pensei “taí uma boa chance de tirar a prova, se eu sentir alguma coisa…”. A facilitadora olhou para nós e disse que fizéssemos o que quiséssemos. Que deixássemos nossos corpos à vontade e simplesmente sentíssemos a energia. Ficava cada vez mais difícil não rir. Enquanto isso ela fazia algumas perguntas para a voluntária. Eu e minha amiga controlávamos o riso, e nem podíamos nos olhar nos olhos. Vocês estão sentindo alguma coisa? Não. Nada? Não. Estão confortáveis. Eu estou. Ah… Tudo bem. Dez minutos e nem nos mexíamos. Nada acontecia. “Vocês gostariam de se sentar? Às vezes as pessoas não estão prontas e receptivas para a situação. Não tem problema.” Sentamo-nos. Uma senhora e um jovem foram escolhidos. O que você está sentindo, mãe? “Uma dor (choramingando) horrível aqui, como se fosse um nó na garganta”. E você, filho? “Estou tremendo, tremendo inteiro, sinto um bloqueio, não sei, não quero fazer nada”. A pseudomãe chorava aos cântaros. E mais pessoas foram sendo chamadas, para representar outros familiares, como o pai, avós, etc. Rapidamente metade dos presentes estava de pé e “sentindo” a energia daquela família. Eu imaginava como alguém podia acreditar naquilo. Pensei em golpe, charlatanismo, pegadinha do Faustão. Não me conformava com aqueles adultos chorando e dizendo coisas como “eu gosto muito dela”,”sinto uma raiva muito grande dele”. Imaginei se tratava-se de participantes do golpe, estrategicamente estavam escondidas na platéia, prontos para nos enganar. Mas quando só sobrou eu e minha amiga, achei altamente improvável que tanta gente estivesse metida nisso. Fui obrigado a aceitar que as pessoas fazem as coisas mais estranhas quando estão em desespero.
I´ll do anything once, disse para a colega de palestra. Ela limitou-se a conter o riso. Mal sabíamos que o melhor estava por vir. A facilitadora era uma japonesa de fala mansa, quase irritante. Não tinha entonação nenhuma na voz, seu discurso era plano. Quando acabou a demonstração, três pessoas relataram sentir dor na cabeça, uma pressão nas têmporas. A nipo-brasileira (deixa pra lá, não vou ser politicamente correto), a japonesa virou para elas e disse: “se vocês chegarem em casa e ainda estiverem sentindo isso, façam o seguinte (tomem um tylenol, eu comentei com meus botões): pensem na pessoa e peçam que ela receba a energia de volta. Ou melhor, façam o seguinte, venham aqui na frente.”
Ela formou um círculo com as três mulheres e disse: “Apóiem os pés no chão, abram o ânus e a vagina (sim, ela disse isso), e respirem fundo três vezes. Isso. Agora eu quero que vocês façam o Rá! (!). Pulem e gritem Rá!, mas ele tem que sair lá de dentro.” E nisso, a japa deu um grito totalmente inesperado. Bizarro, no mínimo. Funcionou mesmo!, disse a mãe chorona.
E eu não via a hora de ir embora e tirar sarro daquela situação esdrúxula. Finalmente fomos liberados e corremos como loucos para o carro onde, a salvo daquele manicômio, pudemos finalmente rir sem medo de sermos taxados de fariseus. Resumo da noite: acho que talvez estejamos precisando de um pouco mais de espiritualidade em nossas vidas. Mas não tanto.
